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quarta-feira, novembro 10, 2010

"O DEBATE DE IDEIAS ESTÁ DESAPARECENDO DA POLÍTICA"!

Um trecho da longa entrevista autobiográfica de Felipe Gonzalez (foto) a El País (07).

1. O que se está fazendo é seguidismo da opinião pública; se está banalizando o debate político a tal ponto que não se pode desenvolver projetos políticos que em certo momento podem ir na contramão da opinião pública. Como dizia Azaña, não há nada mais variável do que a chamada opinião pública.

2. Há cerca de quatro ou cinco anos, encontrei-me por acaso no aeroporto de Washington com Henry Kissinger (foto), e ele me disse: "Olha, Felipe, a política está nas mãos de pessoas que fazem discursos pseudo-religiosos e simplistas e que são na verdade ofertas de venda de eletrodomésticos". Concordei. E ele acrescentou: "Desapareceu de tal maneira o debate de ideias, a contraposição de ideias; estamos em uma simplificação tão grande da política, que deixou de me interessar. Aborrece-me profundamente este mundo da política em que estamos vivendo."

* * *

O QUE É LIDERANÇA POLÍTICA?

Outro trecho da longa entrevista autobiográfica de Felipe Gonzalez a El País (07).

1. Existem algumas características fundamentais de liderança política: a) não pode ser líder quem não tem capacidade e/ou sensibilidade, para sentir o estado de espírito do outro. Se você não consegue perceber o estado de espírito do outro, o outro não se sente próximo, sente que você não o compreende e não te aceita como líder; b) não há liderança a menos que você mude o estado de espírito dos outros, de negativo para positivo ou de positivo para ainda mais positivo, o que acarreta acreditar realmente no projeto oferecido, acreditar sem troca o que lhe dá mais força. E a capacidade de transmitir este projeto como um projeto que envolva os outros, que comprometa os demais mudando o estado de espírito que já existia.

2. Mas tem que ser um projeto que permita que as pessoas pensem que, apesar dos esforços exigidos, esse esforço fará sentido, convencendo-o que o que está sendo solicitado é solicitado porque se acredita nele. E se acredita de forma não mercenária (troca). Mas é preciso acreditar no se você está fazendo. Por exemplo, aqui está se fazendo substancialmente o que tem que ser feito, apesar de 'eu' discordar em algumas coisas. Ao mesmo tempo, o que se faz não é porque o senhor “mercado” impõe, e não temos escolha.

3. Por isso eu creio que há uma crise de credibilidade. A sociedade está muito mais complexa, mas a arte de governar é algo mais do que a administração das coisas. É a capacidade de fazer de uma sociedade plural em suas ideias, diversa nos sentimentos de identidade e contraditória em seus interesses, um projeto comum que interesse a todos em maior ou menor grau. Essa é a arte de governar o espaço público que partilhamos.

quinta-feira, abril 30, 2009

Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem a sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso.
E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo esta cambalhota!
(Carlos Drummond de Andrade).


Amigos, o vício é uma coisa séria. O vício é coisa difícil de largar. Na última quinta-feira, despedi-me de vocês, resolvido a nunca mais escrever colunas sobre futebol. Pedi a conta na Furacao.com e passei e-mail aos amigos comunicando a minha decisão.

Recebi dezenas de respostas pedindo pra ficar ou, ao menos, não deixar de escrever, nem que fosse para o “Fala, Atleticano”, a coluna do leitor do site. Firme em minha decisão, li cada um dos pedidos, respondi e firmei posição de não voltar de jeito nenhum.

Pelas minhas contas, foram 250 colunas em cinco anos, contabilizadas as colunas como leitor no “Fala, Atleticano” e depois como Colunista do RubroNegro.Net e da Furacao.com. Escrever mais o quê? Nada mais a declarar, encerrei a noite de quinta-feira decidido a não escrever mais sobre futebol. E a noite se abriu em sonhos.

Sexta-feira de manhã, algo me incomodava. Tomei café, fumei e nada de o incômodo passar. Liguei o computador e iniciei um parágrafo “O Geninho precisa parar com essa mania de botar os garotos no final da partida, pois isso não resolve nada”. Atônito, olhei para o micro e apaguei o período: colunas de futebol? Jamais.

Na tela, arrisquei um poema “Só a tua ausência me deu a real dimensão do quanto sinto a tua falta!” – mas o que é que me faltava? Tinha estado com a Edith na noite anterior, tinha estado com os amigos havia poucos dias, tudo que eu poderia querer estava comigo, mas na tela o poema era um neon na minha cara “Só a tua ausência me deu a real dimensão do quanto sinto a tua falta!”.

Resignado, dobrei-me diante da verdadeira verdade: faltava-me a coluna, este vício maldito. Vício é coisa séria, difícil de largar. E junto com essa inafastável verdade vieram-me os versos de Drummond, os quais cito no início deste texto, mas me vieram convertidos em paródia que também pode se chamar “Explicação”:

Minha coluna é minha consolação.

Minha coluna é minha cachaça. Todo mundo tem a sua cachaça.
Para escrever, site pequeno, coluna do leitor, site grande, Orkut, e-mail, blog, tudo serve.
Para louvar o Atlético como para aliviar os nervos, queixar o desprezo, cantar minha vida e trabalhos é que faço minha coluna. E minha coluna me agrada.
Minha coluna me agrada sempre...
Ela às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota, mas não é para o público, é para mim mesmo esta cambalhota!
Definitivamente, era preciso voltar a escrever as colunas. Mas onde? Tinha pedido para sair do site. E agora, Rafael? Em plena Sexta-Feira da Paixão, eu estava sem esperanças de voltar a escrever. Triste, fui à área de serviço, acendi um cigarro e por uma fresta da janela assoprava a fumaça para longe, como se criasse uma outra forma de me comunicar com Deus.

Não demorou muito e minha mãe veio me perguntar o que é que estava havendo. Contei-lhe sobre a perda da coluna e ela disse que a Páscoa é tempo de renascimento. Irônico, perguntei-lhe “Até colunas renascem na Páscoa?” e ela apenas repetiu “Páscoa é tempo de renascimento!”. Lembro-me só de ter dito “Amém!”.

Não me perguntem como, não queiram saber quem por mim intercedeu, mas eis que no Domingo de Páscoa me (re) apareceu um velho Amigo, Dr. Waldemar,
a me oferecer espaço neste blog para veicular minha coluninha, meu vício, minha cachaça, minha consolação.

Agradecido e cheio de felicidade, aceitei o convite do bom Amigo e neste espaço publicarei minhas colunas, a começar por hoje. E como o blog é rico noutros tantos assuntos - política, arte e literatura - é bem capaz de eu me animar a fugir um pouco do Atlético e publicar uns poemas, ou tentativas de poemas, coisa que até então não tinha podido fazer.
Para escrever, site pequeno, coluna do leitor, site grande, Orkut, e-mail, blog, tudo serve.
Para louvar o Atlético como para aliviar os nervos, queixar o desprezo, cantar minha vida e trabalhos é que faço minha coluna. E minha coluna me agrada.
Minha coluna me agrada sempre...
Espero, humildemente, que ela também agrade vocês, queridos leitores, prezados amigos, companheiros sem os quais a vida perde muito de sua graça e de sua beleza!
Abração do Rafael Lemos, agora sob as ordens do preclaro Chefe, Waldemar Pluschkatt Neto, meu velho e bom Amigo, convertido agora em Anjo da Guarda!

E-mail para contato:
rflemos75@hotmail.com

sexta-feira, dezembro 26, 2008

COLOCAR DE PÉ A OPOSIÇÃO

Trechos de artigo do politólogo e historiador argentino Natalio Botana (foto) no La Nacion

1. A democracia se desenvolve de acordo com o ritmo de dois movimentos: os governos devem construir poder e a oposição deve suscitar alternativas. O vazio de confiança, que atrai os argentinos para o despenhadeiro, se deve à acumulação de erros históricos, entre eles a implacável instabilidade dos contratos e à debilidade de uma sociedade civil que não chega a representar-se e que, além disso, está duplamente agredida por cima e por baixo.

2. Muito poucos expressam e menos executam a imprescindível reforma do Estado que seja capaz de reparar certas estruturas obsoletas. Elas não fazem mais do que demonstrar a escassa atenção que merecem, entre outros, as crianças e os adolescentes mais desprotegidos.

3. Estas reflexões podem servir para colocar sinais no trajeto da oposição. O diálogo na política é tão indispensável quanto o compromisso. Não obstante, ambos poderiam concluir, numa ação inútil, por não mediar a vontade de identificar-se com as reivindicações da sociedade civil. Algumas dessas exigências são singulares, outras, ao contrário, são como um rumor nos gritos e gestos das vítimas.

4. Disso se trata, em suma, de recuperar a dignidade. É uma tarefa por si só difícil, pois a arte da construção política caminha de maneira mais lenta que a da contestação social. Esta última é tributária das mobilizações sociais, que surgem dos interesses afetados. A arte da construção política supõe, ao contrário, uma tenacidade mais firme para aproximar posições e superar a tentação de monopolizar a verdade e a virtude.

5. É uma arte que antecipa um estilo de governo mais atento ao valor do consenso sobre determinadas políticas públicas. A confrontação não resolveu estes problemas e eles aí estão para maiores dados, as igualdades que não crescem e a violência social que não decresce. Estas são as capas da descrença coletiva que se deve atravessar.

terça-feira, setembro 16, 2008

Uma obra de arte sem Moldura


O cara desce na estação do metrô de NY vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.
Durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes, ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de
1713,
estimado em mais de 3 milhões de dólares.
Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam
a bagatela de 1000 dólares.

A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto.

Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife.

segunda-feira, agosto 11, 2008

JOAQUIM NABUCO

Se um politólogo tiver que destacar uma análise política de conjuntura no século 19, que tenha sido substantiva, com uso adequado e coerente dos instrumentos teóricos, certamente citaria "O 18o Brumário" onde Marx analisa a ascensão de Napoleão III na França. Publicou por capítulos em diário de Chicago e depois foi agrupado em livro mais tarde, clássico.
Se pedirmos o mesmo para a América Latina, também no século 19, ter-se-ia dificuldade de destacar um texto. Recentemente foi reeditada a análise de Joaquim Nabuco (foto) ("Balmaceda" Ed. Cosacnaify) sobre o golpe do presidente Balmaceda em 1891 no Chile e a guerra civil que se seguiu nos 9 meses daquele ano. Nabuco - em 1895 - esgrima uma análise profunda e sofisticada, que equivale em qualidade ao 18 Brumário para a América do Sul.

Abaixo, trechos selecionados por este Blog:


a) Política silogística é a arte de construção no vácuo. A base são teses e não fatos; o material, idéias e não homens, a situação, o mundo e não o país, os habitantes, as gerações futuras e não as atuais.

b) A protelação sistemática força o Congresso à inação, transforma-o em uma espécie de teatro de declamação, faz com que ele funcionando se sinta tão paralisado e inútil como se não estivesse reunido.

c) Era um estado maior sem soldados. Mas era um núcleo, pequeno em número, porém compacto, com homens resolutos.

d) Balmaceda ao fechar o Congresso, não tinha outro pensamento senão fabricar, na presidência, à última maneira dos argentinos, um partido seu, pessoal, anônimo, composto do lumpen, e dos repelidos de todos os partidos independentes.

e) A análise tinha esse caráter de superficialidade brilhante, própria do jornalismo político.

f) Há que aperfeiçoar o sistema parlamentar até torná-lo como na Inglaterra, um relógio que marca os minutos da opinião pública, e não somente as horas, como o governo presidencial americano.

g) O direito de defesa é inerente ao funcionamento de todos os poderes do Estado, e inseparável da autonomia de cada um.

h) Não há nada que paralise mais a iniciativa de um político, que a glória.

i) As retiradas são o supremo esforço do general e exigem a máxima solidez da tropa. A um amigo que uma vez o comparava aos grandes generais da história, Moltke (marechal de Bismarck) interrompeu dizendo: - Ainda não comandei uma retirada.

j) O político tem de representar o seu papel até o fim.

l) O político deve ter cuidado com a desordem nas leituras. Nesse caso, o torna-se uma espécie de títere de biblioteca; deixa de pensar por si, de contar consigo. Um espírito assim, posto no governo, a sua marcha política só pode ser um eterno zigue-zague, as suas construções um labirinto, até que de repente se vê sem saída.

m) Durante anos alguns países sofrem os males da anarquia e julgam estar sofrendo os do governo pessoal.

segunda-feira, maio 05, 2008

URUGUAI COMO REFERÊNCIA!

O politólogo e historiador argentino - Natálio Botana - analisa a vitória de Lugo no Paraguai de forma positiva em seu artigo A Democracia Liberal! Trechos. La Nacion.

1. O vento da democracia eleitoral continua soprando forte na América do Sul. A vitória de Fernando Lugo, no Paraguai, no último domingo, ilustra de maneira eloqüente as virtudes do sufrágio para destituir um regime hegemônico do exercício do poder. A destituição envolve um sério desafio. Em nossos países, a democracia eleitoral é um ponto de partida para alcançar benefícios de uma democracia institucional capaz de reconstituir o Estado de direito e lançar as bases de uma democracia de cidadãos com melhores níveis de equidade.

2. É necessário aplicar-se ao difícil aprendizado da arte das coligações políticas. Em grande medida, esta foi a estratégia de Fernando Lugo. Em torno de sua liderança, se construiu um amplo arco, que abarca desde os partidos tradicionais de oposição de centro-direita até um conjunto de movimentos sociais que podem enquadrar-se na esquerda. O caráter heterogêneo desta coligação significa uma vantagem eleitoral e, ao mesmo tempo, pode chegar a ser um sinal de debilidade de não colocar em prática alguns requisitos quanto à sua capacidade de governo.

3. Dada a urgência do que se deve fazer, a inteligência e a vontade do Presidente eleito serão decisivas para manter a coesão em suas fileiras. Deste ponto se infere que o propósito maior, que deveria inspirar o novo governo paraguaio, é o de ir armando, mediante reformas sucessivas, o perfil da democracia institucional.

4. Por isso, fez bem o presidente eleito ao voltar seu olhar para o Uruguai. Os governos e a oposição dos pequenos países guardam um depósito de sabedoria que deveria servir de exemplo para superar a instabilidade e a arrogância de alguns países grandes. No caso do Uruguai, a experiência reformista, que, como altos e baixos, procura levar avante o governo de Tabaré Vázquez, permaneceu alheia aos cantos de sereia do chavismo.

5. Não há, então, um só itinerário digno de ser seguido, mas sim dois caminhos possíveis. São razões suficientes para que a Argentina e o Brasil afrontem, com inteligência regional, as demandas que virão desde Assunção em
matéria energética.

sexta-feira, março 28, 2008

A identidade da esquerda!

Resumo de artigo de Leandro Konder no Jornal do Brasil!

1.
Os impasses da esquerda e a malandragem da direita criam um espaço peculiar - :.....nem esquerda nem direita souberam ocupar e manter esse lugar , vide Jânio e Collor . Esse é um espaço que vem crescendo no vácuo da fragilidade institucional brasileira, e ocupado agora pelo Lula ...que montou uma base heterogênea para governar - que por vezes o impede de governar - e engloba democratas, liberais, conservadores, populistas e até socialistas.


2.
Para não se perder nesse ambiente a esquerda deve se recordar do princípio gramsciano: "pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. A discussão empobreceu, a resignação se expande, e o espírito questionador está anêmico.


3.
A esquerda tem consciência desse drama e o enfrenta procurando não morrer. Quer mudar sem encerrar a luta e sem morrer. Conclui esclarecendo - o que entende por esquerda - hoje - ...são espíritos críticos que propõe alternativas aos malefícios que a desigualdade social acarreta para a humanidade. Seriam especialistas na luta contra a injustiça e na arte da sobrevivência.

sexta-feira, março 14, 2008

O Primeiro na aldeia ou o segundo em Roma?

Trechos da coluna dominical do jornalista sênior Mariano Grondona - em La Nacion.

1.
Quando Julio César marchava com suas legiões para a conquista de Roma, passou por uma pequena aldeia. Os membros de sua comitiva começaram a zombar dela até que Julio César os surpreendeu com esta frase: "Preferiria ser o primeiro nesta aldeia do que ser o segundo em Roma".


2.
Para seguir o rastro de uma carreira política, deve-se perguntar, então, qual é a ambição de seu personagem. Resigna-se ele a compartilhar o poder com outros para juntar-se a um grande projeto, ou sua sede de poder é tamanha que estaria disposto a reduzir o espaço de sua supremacia desde que não a compartilhasse com ninguém? Enquanto não podemos responder esta pergunta, ficamos sem conhecer o argumento central de uma determinada vida política.


3.
Temos de saber primeiro o que na realidade os políticos com poder, pretendem fazer depois, se não tiverem êxito ou fracassarem. Mas, é possível decifrar as intenções de um homem de poder, quando a arte política consiste em ocultá-las? Para lográ-lo, desde já, não é preciso ler seus discursos, mas sim observar suas ações. "Pelos fatos vocês o conhecerão". O comportamento concreto de um homem de poder se encaixa, então, na hipótese máxima, a ambição de uma dominação sem concessões, mesmo que seja a custo do espaço. Ou a hipótese mínima, a ambição de compartilhar para somar?

Pergunto: A carapuça serviu no Lulla?

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

PASSAPORTE CARIMBADO

DUAS DECLARAÇÕES
Ainda soam bem claro nos meus ouvidos duas estúpidas declarações, gritadas repetidamente aos quatro ventos por milhares de ignorantes brasileiros, exigindo o Calote da nossa Dívida Externa! e o Fora FMI!
FESTEJO
Lembro também que, no governo Sarney, quando o Brasil decretou o calote, os mesmos ignorantes festejaram a decisão. E o resultado, como é sabido, foi triste demais para o país. Os investidores caíram fora e os financiamentos sumiram. E os poucos empréstimos que conseguimos obter chegaram com custos muito elevados. Tudo conforme o risco que o Brasil representava.
JUÍZO
Independente de qualquer simpatia por este ou aquele governante, o fato é que a partir do governo de FHC é que o Brasil tomou juízo e acertou melhor o rumo. Os acordos com o FMI e o Clube de Paris foram assinados com comprometimento. Faltou, na ocasião, a adoção da flutuação cambial, que apontei desde o primeiro momento.
FLUTUAÇÃO CAMBIAL
Hoje já temos a comprovação de que os acertos aconteceram. A partir da flutuação cambial, quando o governo transferiu para o investidor o risco da flutuação do dólar, as remessas financeiras para o Brasil passaram a ser melhor avaliadas. Entre tantas providências, esta foi muito importante.
CREDIBILIDADE
Para felicidade geral da Nação, e das Nações que estão apostando no Brasil, na área econômica o presidente Lula preferiu se manter afastado. Merece aplausos por ter colocado Henrique Meireles no BC. Com forte blindagem Meireles fez exatamente aquilo que o país precisava: ganhar credibilidade econômica.
RESERVAS INTERNACIONAIS
O resultado aí está: no âmbito externo o nosso saldo é credor. O governo deve pouco lá fora, e os empréstimos internacionais feitos pela iniciativa privada constituem reservas. Para cada centavo internado, o governo emite moeda nacional e a moeda estrangeira fica depositada em forma de reserva.
INVESTIMENT GRADE
Pergunto: é melhor fazer uma correta administração e ganhar credibilidade, ou o máximo é ficar bradando pelo calote da dívida? Com a palavra os inteligentes, pois os ignorantes não entendem da arte de administrar. Da minha parte informo que estou estufando os pulmões, para gritar aos quatro ventos, da minha satisfação quando o Brasil receber o INVESTMENT GRADE.
RECESSÃO AMERICANA
O surpreendentemente fraco índice de atividade regional divulgado ontem, pelo Fed da Filadélfia, indica que os EUA poderão sofrer uma recessão tão profunda quanto a de 1990 e muito pior do que a 2001. A opinião é dos economistas Sheryl King e David A. Rosenberg, do Merrill Lynch. Eles afirmam que o debate não é mais se a economia está em recessão, mas sobre quão duro o pouso será.

Fonte: PONTOCRÍTICO.COM

quinta-feira, janeiro 24, 2008

LIVRO IMPERDÍVEL, ESPECIALMENTE PARA POLÍTICOS E JORNALISTAS! OS MELHORES JORNAIS DO MUNDO

De Matías Molina -Editora Globo.

New York Times - página 102. Uns poucos trechos abaixo:

1. (o repórter), Jayson Blair (foto) havia falsificado entrevistas, inventado noticias e viagens, plagiado reportagens, bajulado superiores e mentido sistematicamente. O problema principal não era o chocante comportamento de Blair, mas o ambiente que permitiu isso.

2. Judith Miller, uma das estrelas da reportagem do NYT, foi a principal disseminadora dessas informações, obtidas a partir de obscuras fontes mal identificadas. Durante vários dias o jornal deu destaque extraordinário ao perigo das "armas de destruição em massa". As matérias de Miller estavam alinhadas com a posição da Casa Branca para ir à guerra com o Iraque.

3. John Morton, consultor de empresas de comunicação: - Há uma razão geral pela qual o Times tem uma das margens operacionais mais baixas do setor: porque gasta mais dinheiro em jornalismo.

4. Esta atitude de dar prioridade à informação sobre o dividendo dos acionistas é extremamente rara na maioria das empresas jornalísticas, em qualquer lugar do mundo.

5. Max Frenkel, antigo editor do NYT: Há um visível esforço para lembrar que o jornalismo é uma arte narrativa que une o passado ao futuro, a causa à conseqüência, e que a função do dos jornalistas é transformar a mera informação em conhecimento. Os fatos não informam: os repórteres e editores sim.

sábado, janeiro 05, 2008

ARTIGO IMPERDIVEL SOBRE OS TECNOCRATAS NA POLÍTICA! A HORA DOS NÃO POLÍTICOS!

Por Jorge Fernández Diaz - La Nacion - Trechos.

1. Não diria que a política seja assimilável à literatura ou à pintura, porém posso assegurar-lhes que se trata de uma arte maior e que sua prática necessita uma vocação tão profunda e abnegada tal como um artista verdadeiro se auto-impõe. Em vinte e cinco anos de jornalismo conheci apenas um dirigente de primeiro nível que não era um animal político. Um homem sem tempo livre, quase um prisioneiro da matéria que domina. As vocações vulcânicas apagam o homem do mundo, deixam suas famílias perplexas e também suas necessidades mundanas, e como todo ato de amor torrencial, trata-se de um ato obsessivo.

2. Ninguém consegue chegar aos primeiros lugares sem possuir esse fogo sagrado. Comparar a política real com a política corporativa das empresas é, portanto, um amargo equívoco. A política, apesar de todos os seus gurus e politicólogos, resiste às regras do gerenciamento ortodoxo e da ciência pura. No mundo dos negócios, um mais um são dois. Na política, como todo mundo sabe, dois mais dois não são necessariamente quatro. Os que não são políticos são homens de ideologia pasteurizada, que igualmente se apossam das posições de "centro", e do livre mercado, e que começaram a se meter no lodo da história.

3. Alguns se sentem, no fundo de seus corações, injustamente derrotados por “políticos medíocres" e 'burocratas clientelistas". Eles, os príncipes da nova política, eficientes e limpos, cursaram a universidade e conhecem o mundo: são bastante viajados. Como é possível que possamos ser derrotados por esses políticos de cabotagem, esses imprestáveis de sempre, se perguntam eles. Alguns desses gerentes da nova política dormem com a mala fechada ao lado da cama. Estão sempre prontos para voltar ao setor privado ruminando uma queixa:” Sou demasiado bom e honesto para ficar na política".

4. Na verdade, esquecem que os verdadeiros militantes políticos não têm para onde voltar, porque pertencem de corpo e alma à luta política. Porque não poderiam fazer outra coisa, pelo simples fato de que nasceram para aquilo, porque resolveram agir de uma fora extrema. Um gerente é demasiadamente cerebral e possui um demasiado "sentido comum" para agir assim. Um militante é medido, não apenas pelo modo com que reage a uma vitória, mas sim como se recupera de suas derrotas. Esses senhores necessitam um exame profundo para entender o que está ocorrendo com eles. Na verdade são amadores pensando que são profissionais. Não dominam o assunto completamente, e no fundo, o depreciam um pouco.

5. Toda a nova política está cheia desses personagens bonzinhos e amorfos: Aves de arribação querendo comer as feras ainda cruas. Não é possível ensinar política a um incapaz, assim como não se pode ensinar política a que não tem ouvidos. Entender a política entendê-la de verdade, é um Dom: ou se tem ou não o tem. É um saber que não se adquire nos livros nem nos claustros. Esse saber é adquirido nas ruas e de maneira visceral. O que quero dizer é que parecem possuir grandes convicções, porém lhes falta paciência e flexibilidade para organizar partidos políticos consistentes, com alas de esquerda e de direita, com democracia interna e participação.

6. Abertamente individualistas, um dia recebem três milhões de votos e no dia seguinte não recebem voto nenhum. Têm uma estranha alergia, contagiada pelos pesquisadores de opinião e a “opinião pública" mais toscas dos comentaristas automáticos das rádios, que consiste em acreditar que toda aliança é a Aliança, ou seja, uma montagem invertebrada e incoerente que fracassa ao governar. E também que todo pacto político, é uma aliança para dividir favores.

7. Sem dominar o assunto, sem vocação nem visão pública, sem sentido comum, sem pragmatismo e sem humildade, sem capacidade para compor uma idéia, julgam estar num lugar mas estão em outro. Só se consegue mudar a história com esse apetite insaciável, com essa paixão que um frio gerente não pode gerenciar. Talvez nem sequer possa compreender. A nova política não pode amadurecer nas mãos daqueles que não são políticos.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

"E se os políticos pudessem calar-se por pelo menos um mês? "

Trechos do artigo do historiador Paul Kennedy, da Universidade de Yale, no Clarin, a partir do Cala-te dito pelo Rei da Espanha a Chávez.

1. Não seria um alivio para os ouvidos da humanidade se os políticos reduzissem em geral a quantidade de declarações que fazem sobre temas da atualidade? A lista de exemplos políticos de verborragia e hiperatividade podem estender-se com facilidade. Falar demasiado e atuar com excessiva freqüência reduz a credibilidade do que se pretende alcançar. Os mestres dessa arte quase esquecida de ficar na sua, fechando a boca, são os chineses.

2. Dão sua opinião apenas quando precisam fazê-lo e, de preferência, em particular. As diferenças internas se discutem a portas fechadas. Salvo no caso de surgir um tema demasiado irritante, optam pela diplomacia discreta e não pela oratória pública, e quase sempre se saem bem.

3. Talvez os chineses sejam os melhores discípulos da grande figura alemã de Otto von Bismarck, do que os ocidentais. Sem dúvida, Bismarck fez uma série de declarações públicas, mas em geral preferia atingir seus objetivos por meio da diplomacia e da negociação. Sua proporção de êxitos, até ao final de seus vinte anos como primeiro Chanceler alemão, foi extraordinária. Essas foram, sem dúvida, épocas extraordinárias, muito especialmente em termos históricos. A Alemanha era o eixo do sistema da Grande Potência Européia, Bismarck era um grande jogador de pôquer e um diplomata genial.

4. De todas as maneiras, esse exemplo extremo bismarckeano do "silencio é ouro" e a reticência atual das autoridades chinesas com relação a temas internacionais complexos são pontos que valem a pena considerar. Por mais que nossos políticos não possam guardar um longo silêncio, nem desaparecer durante toda uma estação, não poderiam comprometer-se a "se calarem" por um mês? Bastaria até uma semana. Por favor.

sábado, julho 28, 2007

BACK-DROPS!

Elisabeth Bumiller, em artigo publicado no New York Times, tratou do assunto sob o sugestivo título: "Os produtores de imagem de Bush elevam a arte teatral a novas alturas". Não passa desapercebido, a quem lê as colunas deste site, o quanto o presidente Bush tem tirado proveito das "photo opps" que sua equipe produz. Algumas destas fotos de oportunidade são fáceis de lembrar: A aterrissagem de George Bush no deck do porta-aviões, ao estilo 'Top Gun', será recordada como um dos mais audaciosos momentos do teatro presidencial da história americana. Não passa, porém, do último exemplo de como a administração Bush está indo muito além das bases teatrais estabelecidas pela Casa Branca do tempo de Reagan, no uso dos poderes da TV e da tecnologia para promover a presidência.
Funcionários de administrações passadas, Democráticas ou Republicanas, encantam-se ao ver como a Casa Branca não parece perder uma única oportunidade para apresentar Bush em cenários dramáticos e perfeitamente iluminados. É tudo planejado: a Casa Branca abasteceu-se de pessoal especializado das redes de TV em iluminação, ângulos para câmeras, e a importância dos cartazes e efeitos de fundo de cena.
Segundo o principal responsável pelo trabalho de construção de imagem de Reagan, Michael Deaver, "eles entendem o visual tão bem quanto qualquer um jamais entendeu (...) Eles fizeram do visual uma forma de arte".
Dan Bartlett, o diretor de comunicações da Casa Branca, disse: "Nós damos uma atenção muito especial não apenas ao que o presidente diz, mas também ao que o povo americano vê. Os americanos têm uma vida muito ocupada, e, muitas vezes, não têm a oportunidade de ler uma matéria ou ouvir uma mensagem por inteiro. Mas, se eles puderem ter uma compreensão imediata do que o presidente está falando, assistindo a um spot de 60 segundos na TV, nós alcançamos a nossa meta de comunicadores. Por isso, nós tratamos este assunto tão seriamente".
A "grande novidade" que os especialistas de marketing político estão identificando, porém, é o uso criativo e inovativo dos efeitos de fundo de cena (backdrops). Eles foram recuperados da função banal que possuíam para integrar-se à "mise em scène" cuidadosamente produzida. Assim, banners, cartazes, agrupamentos de soldados, atrás do pódio presidencial (ao estilo do filme "Paton"), grupos de pessoas, jardins, interiores, monumentos, e até equipamentos de guerra, são trabalhados como reforço, explícito ou subliminar, da mensagem que o presidente quer passar, e da sua imagem como líder nacional.
Um cameraman de uma rede nacional de TV chegou a afirmar: "Eles abordam o local de cada evento como se fosse um estúdio de TV", e equipes de TV comentam que raramente tiveram imagens tão atraentes como agora, para mandar para as salas de edição. A melhor conclusão sobre esta inovação foi feita pelo antigo responsável pela imagem de Ronald Reagan: "Eles entendem que, dando profundidade à imagem, o candidato ou o presidente aparece muito melhor. Eles sabem que o que está em volta da cabeça é tão importante quanto a cabeça".

quarta-feira, junho 06, 2007

PESQUISAS E DEMAGOGIA! Aqui... como... lá...!

Trechos da coluna dominical de Mariano Grondona em La Nacion: O Novo Nome da Demagogia!

1. O verbo adular provem do latim adulari, uma expressão próxima a acariciar e a adulterar. Este último verbo provem da raiz AL, ou seja, mais além de ou no latim - alter, outro. Seguindo esta pista etimológica poderia dizer-se que a adulação tem o efeito de alterar, de levar mais além de si mesmo, a quem o adulador adultera, primeiro sua própria imagem para manipular depois a vontade. Fascinado pelo adulador, o adulado - acredita -, e cai, a partir daí, baixo a influência de quem o manipula como um meio para seus próprios fins. As carícias do adulador corrompem a sua vítima, alteram a sua natureza.
2.
Quando Aristóteles tratou deste tema em A Política, distinguiu dois tipos de adulação, conforme o regime político. Nas monarquias os cortesãos inescrupulosos corrompiam o rei mediante as caricias da adulação. Nas democracias, cujo soberano é o povo, os políticos corrompiam o povo mediante as caricias da demagogia. Mas hoje os demagogos contam com um poderoso instrumento que os contemporâneos de Aristóteles não tinham: a capacidade de medir cientificamente os sentimentos e as preferências dos adulados. Hoje a terra fértil que nutre a demagogia é a proliferação de pesquisas.

3. Aristóteles elaborou dois tipos de discurso: o eXotérico - destinado ao publico em geral -, e o eSotérico, reservado a seus discípulos. Da mesma forma há que se distinguir dois tipos de pesquisas: a exotérica, que se exibe ao publico, e a esotérica, para uso reservado do cliente.
4. O objetivo das pesquisas exotéricas, é o marketing. Quando se pode apresentar com um mínimo de verossimilhança, uma pesquisa que favorece a um candidato este decide divulgá-la. Elas tratam de um exitismo, de um jogo de ganhador. O observador deve ter muito cuidado com elas.
5. As pesquisas esotéricas, são as que mais se aproximam da verdade. Mas só o cliente a conhece. Mas que efeito produzem sobre o político que a contrata?
6. O sociólogo Dick Morris, consultor a seu tempo de Clinton, distingue três tipos de políticos: o "idealista falido" que tem grandes ideais, mas não consegue comunicá-los ao publico; o "Idealista Astuto", que tendo grandes ideais consegue comunicá-los e que é o melhor dos políticos porque é o estadista capaz de guiar seu povo. E o pior político é o "Demagogo" que - ao contrário - não abriga nenhuma idéia própria, mas que para triunfar se limita a cultivar sem escrúpulos, o que o público deseja, usando as pesquisas esotéricas sem preocupação com a realidade ou o futuro. Quer governar em direção a seu próprio êxito apenas.
7.
Tanto o idealista astuto como o demagogo utilizam pesquisas esotéricas. Um para comunicar com eficácia seus ideais. O outro para manipular as massas segundo a arte perversa da adulação.

8. Idéias que hoje não atraem majoritariamente o público poderão atrair no futuro quando as fórmulas demagógicas mostrarem sua falácia. Mas no outro extremo da tipologia de Morris milita uma grande quantidade de políticos que se limitam a medir as pesquisas esotéricas para dizer à maioria, em cada momento, o que ela deseja escutar. Estes demagogos se dedicam exclusivamente ao curto prazo: prometem o que se deseja hoje. Quando o humor social muda eles mudam também.
9. Mas seu destino os espera, certamente, em longo prazo, que agora desdenham.

PESQUISAS!
Nenhum instituto de pesquisa na Argentina deu mais que 35% das intenções de voto para Macri, candidato a prefeito de Buenos Aires. Aliás, 35% só um e uma vez. Em geral Macri tinha um pouco menos de 30% das intenções de voto em todos os institutos. Abertas as urnas Macri obteve 45,6%. Com a palavra os institutos para explicar. Se é que dá para explicar.

terça-feira, abril 10, 2007

QUAL É HOJE A PRINCIPAL AMEAÇA À DEMOCRACIA?

O problema hoje não são apenas as tentativas, diagnosticadas por Dewey (foto) na sua época, de usar a democracia (como fim) contra a democracia (como meio). Trata-se, agora – e isso é muito mais difícil de perceber – de usar a democracia (como meio) contra a democracia (como-meio-que-é-o-próprio-fim), não confrontando os meios democráticos, substituindo-os por meio violentos (como faziam a extrema-direita e a velha esquerda revolucionária) e sim esvaziando esses meios de sua substantividade enquanto se mantém a sua casca, a sua liturgia, a sua ritualística formal.
Conquanto o Dewey-educador pareça ser razoavelmente conhecido entre nós, pouco se conhece, no Brasil, do Dewey-político. Refiro-me a John Dewey (1859-1952), o chamado filósofo da América, que no texto “Democracy is Radical”, publicado em janeiro de 1937, em "Common Sense" nº 6, estabeleceu as bases para uma compreensão da democracia que, infelizmente, parece não ter sido ainda alcançada, quer pelos nossos liberais, quer pelos nossos social-democratas. Trata-se de um pequeno artigo, de duas páginas, que passou meio desapercebido pelos teóricos da democracia da sua época e que continua, até hoje, sendo praticamente ignorado pelos que querem trabalhar com a radicalização da democracia (apesar do título já ser surpreendente, considerando-se a época em que foi escrito, ou seja, há mais de 70 anos).
Dewey começa o seu artigo, intitulado "A democracia é radical", dizendo que "poucas são as discordâncias entre os grupos de esquerda sobre os fins sociais a que aspiram, sobretudo se as compararmos com as enormes e explícitas diferenças que os separam na hora de determinar quais meios devem servir a tais fins e de que modo obtê-los. Semelhante discrepância sobre os meios – prossegue ele – é a expressão máxima da tragédia que a democracia vive em nossos dias. As autoridades da Rússia Soviética proclamam que, com a adoção legal da sua nova Constituição, o país conseguiu institucionalizar a democracia pela primeira vez na história. Quase ao mesmo tempo, Goebbels anuncia publicamente que o nacional-socialismo alemão é o único modelo de democracia para o futuro. É possível que, para os que cremos na democracia, expressões de tal jaez não passem de piada de mau gosto. Depois de um período no qual a democracia foi objeto de chacota e escárnio, parece que agora se tornou conveniente aclamá-la".

E continua John Dewey. "Certo é que ninguém que tenha seus pés fora do solo germânico dará crédito à afirmação de que a Alemanha é uma democracia e menos ainda que represente o modelo perfeito de democracia. Não obstante, a acusação de que os chamados Estados democráticos somente conseguiram atingir democracias "burguesas" merece nossa atenção. Por "democracia burguesa" se entende um sistema político no qual o poder recai, em última instância, nas mãos do capitalismo financeiro, por mais que se proclame que o governo é do, para e pelo povo. Examinando as coisas com certa perspectiva histórica, fica claro que a emergência de governos democráticos foi sempre o correlato de uma transferência do poder, que deixou de estar nas mãos do setor agrário para servir aos interesses do setor industrial e comercial".

Mas "essa transferência do poder – lembra o nosso filósofo – jamais teve lugar sem que se travasse certa luta. No desenvolvimento dessa luta, os representantes das novas forças de produção proclamavam que sua causa não era outra que a da liberdade e da livre escolha e iniciativa privada dos indivíduos. No continente e, em medida menor, na Grã Bretanha, a manifestação política da livre empresa adotou o nome de liberalismo. Os chamados partidos liberais eram os que apostavam na ação econômica dos indivíduos levada ao máximo e na mínima intervenção ou controle social. Com essa postura defendiam os interesses dos que desenvolviam sua atividade na industria e no comércio. Se todo o significado do liberalismo se esgotasse nessas manifestações, então o liberalismo como tal já teria cumprido seu papel e seríamos loucos se tentássemos ressuscitá-lo".

Dewey reconhece então que "esse movimento fracassou definitivamente na hora de levar à prática fins como a liberdade e a afirmação do indivíduo, coisa tanto mais grave se levarmos em conta que foi esse mesmo movimento que propôs tais objetivos, invocando-os liminarmente para estabelecer a legitimidade de sua supremacia política. Porém o mesmo movimento que uma vez representou esses fins, outorgou a uns poucos o poder sobre as vidas e os modos de pensar da maioria. A capacidade de impor as condições sob as quais a grande massa pública pode ascender aos meios de produção e aos bens que sua atividade requer, foi o instrumento fundamental de repressão das liberdades e o principal obstáculo para o desenvolvimento da individualidade através dos séculos. Seria absurdo negar que a mudança de senhores trouxe certas melhorias para as massas. Porém magnificar essas melhorias e fazer ouvidos moucos a todos os abusos e iniqüidades, ao despotismo, as repressões e as guerras, abertas ou encobertas, que concorrem no presente sistema, não passa de hipocrisia intelectual e moral. O falseamento e a estupidificação da personalidade humana que pratica o atual regime pecuniário e competitivo desmentem o dictum segundo o qual o sistema social vigente encarna a liberdade e a autonomia do indivíduo, e o desmentem em qualquer acepção de liberdade e individualidade na qual estas existam para todos por igual".

Mas "os Estados Unidos – aponta John Dewey – constituem uma importante exceção da tese segunda a qual, de um ponto de vista histórico, o nascimento da democracia respondia ao interesse de uma classe industrial e comercial, se bem que seja certo que, no processo de formação da constituição federal, essa classe tivesse colhido mais frutos da revolução dos que aqueles que lhe correspondiam. Não menos certo é que conforme este grupo foi se construindo com base no poder econômico, se apossou de crescentes quotas de poder político. Porém é simples e plenamente falso que este país seja meramente uma democracia capitalista, nem sequer em termos políticos. A agitação que nestes momentos vive o nosso país representa algo mais do que o protesto de uma nova classe – chame-se-a de proletariado ou de qualquer outra forma – contra uma autocracia industrial firmemente instalada no poder. É mais uma manifestação do espírito originário e imemorial da nação contra toda força usurpadora e destrutiva absolutamente estranha à democracia".

"Este país – continua argumentando Dewey – nunca contou com um partido político "liberal" de tipo europeu, ainda que durante as últimas campanhas o Partido Republicano tenha feito suas muitas consignas parecidas. Porem os ataques que os líderes do partido lançam sobre o liberalismo, considerando-o como mais uma manifestação da ameaça vermelha, demonstra que, nos Estados Unidos, o liberalismo conta com uma origem, um marco sociocultural e uma finalidade distintas. No fundamental, trata-se de uma tentativa de levar à prática os modos de vida democráticos, conferindo-lhes todo seu significado e seu amplo alcance. Não há nenhuma razão concreta para tentar salvar o termo "liberal". Porém temos todas as razões para não permitir que, com as censuras feitas ao liberalismo, se percam de vista os métodos e as aspirações da democracia. Esse perigo de eclipsar a democracia não se reduz a uma mera questão teórica; é uma questão candente e prática".

Chegamos assim ao centro da questão colocada por John Dewey. "A democracia não somente encarna fins que até os ditadores reivindicam hoje como próprios, fins como a segurança dos indivíduos e a oportunidade para que desenvolvam suas respectivas personalidades. A democracia significa, antes de qualquer coisa, defender os meios necessários para que tais fins possam ser levados a termo. Os meios que a democracia se esforça por articular são aqueles próprios da atividade voluntária em total ausência de coerção; trata-se de obter assentimento e consenso sem impor violência alguma. É a força da organização inteligente versus a força da organização imposta de fora para dentro e de cima para baixo. O princípio fundamental da democracia consiste em que os fins da liberdade e da autonomia para todo indivíduo somente podem ser alcançados empregando-se meios condizentes com esses fins. Defender a bandeira do liberalismo neste país, independentemente do que o liberalismo chegou a significar na Europa, é ter o valor de insistir na liberdade de crença, investigação, debate, reunião, educação e tudo isso sobre a base de um método de inteligência pública oposto às práticas coercitivas cujo exercício se defende em nome da liberdade final de todos os indivíduos. Não é difícil perceber certa hipocrisia intelectual e uma absoluta contradição moral no credo de todos aqueles que defendem a necessidade de que determinada classe social exerça uma ditadura, conquanto temporária, coisa que também pode constatar-se na postura dos que proclamam que no atual sistema econômico reina a liberdade de iniciativa e a igualdade de oportunidades".

Ele reconhece – num movimento ainda mais ousado – que “não há contradição alguma entre a busca de meios liberais e democráticos combinada com a defesa de fins socialmente radicais. E não só não há contradição, senão que nada nos induz a pensar que seja possível alcançar fins sociais radicais por meios que não sejam liberais e democráticos. Nem a história, nem a natureza humana, aportam razão alguma em defesa dessa possibilidade. Há quem pense que os que estão no poder jamais o abandonarão de moto próprio, se não se lhes forçar a fazê-lo empregando um poder ainda maior, porém esta idéia só pode ser corretamente aplicada no caso de ditadores, os quais pretendem estar atuando em nome das massas oprimidas, quando o certo é que estão fazendo uso do poder contra essas mesmas massas. O fim da democracia é, por si mesmo, de natureza radical. Pois se trata de um fim que jamais chegou a ser atingido em nenhum país e em nenhuma época. É um fim radical porquanto requer grandes mudanças nas instituições existentes, nas instituições sociais, econômicas, legais e culturais. Quando o liberalismo democrático não reconhece esses pontos, nem na teoria, nem na ação prática, deixa de ser consciente de seu próprio significado e das exigências que este impõe.”

Dewey conclui seu artigo acrescentando que "não há coisa mais radical do que insistir na articulação de métodos democráticos que sirvam como meios para efetuar mudanças sociais radicais. É assim que não falamos por falar quando qualificamos de reacionária a posição que confia implantar-se pela superioridade da força física. Pois este é o método de que o mundo vem dependendo até agora, um método com o qual o mundo volta a armar-se para a sua perpetuação. É fácil entender por que os que convivem com as iniqüidades e as tragédias cotidianas que caracterizam o atual sistema, por que os que são conscientes de que, afinal, contamos já com os recursos necessários para implantar um sistema que garanta a segurança e a igualdade de oportunidades para todos, hão de mostrar certa impaciência e anseiem acabar com o atual sistema, não importa qual seja o método. Porém a obtenção dos fins democráticos não pode divorciar-se da aplicação de meios democráticos. Temos que acalentar a esperança de que o ideal democrático renasça e se coesione em uma ampla mobilização. Porém esta causa não alcançará mais que vitórias parciais se não brotar de uma verdadeira confiança em nossa natureza humana comum e no poder da ação voluntária e baseada em uma inteligência pública e coletiva".

Eis a íntegra do libelo de Dewey, que deveria ser lido e relido todos os dias, ao levantar e antes ir para cama, pelos democratas hoje confrontados com renovadas tentativas de usar a democracia contra a democracia. O que espanta é a clareza desse senhor de quase 80 anos – e há 70 anos – diante de uma questão que se arrasta sem solução teórica e prática até os dias de hoje. Por que John Dewey pôde ter tamanha clareza? Por duas razões (é a minha hipótese): em primeiro lugar porque ele estava realmente convertido à democracia como idéia (e isso significa estar convencido da necessidade da sua radicalização) e, em segundo lugar, porque ele vivia um momento histórico em que a democracia estava sendo usada instrumentalmente para legitimar a autocracia (tanto à direita, com o nacional-socialismo alemão, quanto à esquerda, com o bolchevismo da III Internacional ainda em expansão). Volto assim à minha velha tese segundo a qual só se pode conceituar – e, portanto, conceber a – democracia diante da autocracia.

Mutatis mutandis, tudo indica que vivemos hoje um momento semelhante. Não estamos na iminência de uma guerra generalizada (como estava Dewey em 1937, na ante-sala da segunda grande guerra mundial) e não existem ameaças totalitárias globais semelhantes ao nazismo e ao comunismo. No entanto, a perversão da política promovida pelos diversos populismos (remanescentes ou reflorescentes, sobretudo na América Latina) constitui uma ameaça seriíssima à democracia que só pode ser plenamente percebida por quem está convencido – como Dewey estava – da necessidade da radicalização da democracia. Infelizmente tanto os liberais quanto os social-democratas de hoje não estão convencidos disso. Crêem que basta se postar (e ainda por cima timidamente) na defesa das regras formais do sistema representativo, com suas instituições e procedimentos limitados ao voto secreto, às eleições periódicas, à alternância de poder, aos direitos civis e à liberdade de organização política, enfim, ao chamado Estado de direito e ao império da lei. Parodiando Tayllerand, parecem não ter esquecido nada e também não ter aprendido nada com o século passado. Mas enquanto eles cochilam, vai avançando o uso da democracia contra a democracia com o fito de manter no poder, por longo prazo, grupos privados que proclamam o ideal democrático como cobertura para enfrear o processo de democratização das sociedades que parasitam.

O grande adversário da democracia hoje – pelo menos entre nós, na América Latina – não é uma suposta extrema-direita (aqui residual ou vestigial), nem sequer uma velha esquerda intoxicada pelas idéias bolchevistas, e sim o neopopulismo em suas diversas formas, da chavista a lulista. É bom reler Dewey – que pregava a indissociabilidade entre meios e fins democráticos – para ter tal clareza e não ficar lutando contra inimigos imaginários. A principal ameaça à democracia agora vem daqueles que respeitam um certo formalismo democrático (se especializando em disputar eleições e inclusive multiplicando processos eletivos; por exemplo, convocando plebiscitos e, em seguida, legitimando, sempre com base em critérios de maioria, alterações institucionais que introduzem procedimentos autocratizantes) para solapar substantivamente os procedimentos democráticos.

Mas o problema hoje não são apenas as tentativas, diagnosticadas por Dewey na sua época, de usar a democracia (como fim) contra a democracia (como meio). Trata-se, agora – e isso é muito mais difícil de perceber – de usar a democracia (como meio) contra a democracia (como-meio-que-é-o-próprio-fim), não confrontando os meios democráticos, substituindo-os por meio violentos (como faziam a extrema-direita e a velha esquerda revolucionária) e sim esvaziando esses meios de sua substantividade enquanto se mantém a sua casca, a sua liturgia, a sua ritualística formal. O mal em política hoje não está na introdução de práticas de guerra (reacionária ou revolucionária) que substituam as práticas não-violentas que caracterizam a democracia e sim na perversão da política como "arte da guerra" (ou como 'continuação da guerra por outros meios': a fórmula inversa de Clausewitz), mantendo-se os mesmos meios, ditos pacíficos, porém não pazeantes das relações políticas, gerando um clima adversarial que vinca as sociedades de cima a baixo por falsas contraposições entre elites e povo, entre conservadores e progressistas, entre direita e esquerda, como fazem – cada qual a seu modo – tanto Chávez, quanto Evo, quanto Lula. É claro que, a partir de certo momento, esse modo de perverter a política e parasitar a democracia acabará tendo que restringir mais abertamente as liberdades. Mas se ficarmos esperando tal momento em que eles avançarão o sinal da legalidade (ou da imagem justificável de legitimidade), já será muito tarde para reagir e, inclusive, para resistir.

A principal ameaça à democracia hoje é o neopopulismo. Os democratas devem, portanto, centrar agora todas as suas energias no combate ao neopopulismo, em todas as suas formas, inclusive naquela que é a mais safada de todas e a mais difícil de ser desmascarada porquanto mimetiza as formas de corrupção endêmicas à política tradicional como estratégia para degenerar as instituições e tomá-las por dentro: a lulista.

sexta-feira, março 30, 2007

O que é política?

Apesar das muitas acepções que a palavra política tem, devemos reconhecer que existe uma realidade homogênea da política.
Aponto três significados para o vocábulo: no primeiro, política é uma forma de conduta humana, uma atividade que se expressa em relações de poder, de mando e de obediência. Quando a ação está referida ao fenômeno do poder, estamos na presença da política prática, aplicada, a arte política, ou seja, a técnica para adquirir, conservar e acrescentar o poder.
O conteúdo desta atividade tem como idéia principal a luta pelo poder. Contudo, também se apresenta como ação de governar, cujo fim básico é organizar e dirigir a comunidade, analisando a forma pela qual se conduzem os governantes para obter êxito em seus propósitos e metas. Assim mesmo, a ação política se entende como empresa comunitária, com especial referência à atividade dos governados, dos dirigidos.
Neste sentido, o poder deixa de ser um fim em si, para se transformar em um meio para se atingir este fim, ainda que ele não seja outro que não a própria institucionalização do poder. Deste modo, o poder atua como antecedente constante e incondicionado da ação política.
Designo como dinâmica política ao processo da política como atividade ou ação que se dá no momento da conquista do poder. Visto assim, resultam três momentos diferentes da política.
O segundo significado é o resultado da política como atividade que tem surgido nos órgãos, na organização e na distribuição das competências que são atividades cristalizadas no Estado moderno, dando lugar à uma política estática. Isto tem levado a diversos autores a sustentar que antes do que o Estado surgiu a política, em virtude da sua maior amplitude.
Das duas idéias anteriores, da dinâmica política e da estática política, convertidas em objeto do estudo sistemático do vocábulo que estamos analisando, surge o seu terceiro significado que se refere a política teórica ou ciência política.
Na sua obra “Teoria de La Política”, o tratadista Carlos Fayt, com a intenção de fazer o termo política mais compreensível explica-o sob quatro sentidos diferentes.
a) Conceito amplo e genérico: Política e político vistos nestas dimensões se referem a toda classe de poder organizado, que significa que não devem ser associados unicamente com poder do Estado, sendo qualquer formação social em que se estabelece uma relação de mando e obediência entre os chefes e seus membros.
b) Conceito específico: Neste sentido o poder político se impõe coativamente e obriga a todos os membros da comunidade a respeitar suas decisões, podendo fazer uso da força material se necessário. Deste ponto de vista a política é a atividade humana que se realiza com a finalidade de influir na organização da vida estatal mediante o exercício do poder.
c) Sentido vulgar de política: Este critério parte da idéia de que a política é a atividade do homem para conquistar o poder, sem importar-se com os meios morais para consegui-lo. Nesta acepção o termo é usado em relação com o governo, com os partidos políticos e com os grupos que pretendem obter o poder do Estado.
d) Acepção científica: Política é o conjunto de conhecimentos sistematizados referentes à organização e governo das comunidades humanas passadas e presentes, de suas instituições e das diversas doutrinas políticas que tem inspirado seu desenvolvimento, levando em conta as relações de poder estabelecidas entre seus membros.