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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

PARA LULA LER,....E RELER!

O jornalista - sênior - Mariano Grondona (foto), em sua coluna de domingo no La Nacion, tratou do complexo e decisivo tema do "combate entre aparência e realidade" na comunicação dos políticos. Fiz um resumo das idéias.

Maquiavel escreveu que os homens se guiam pela aparência e não pela realidade. O político, portanto, tem dois caminhos. Se é um estadista tratará de mostrar a realidade e poderá sofrer um alto custo político até que sua audiência lhe dê razão. Só neste momento o estadista se converterá em um líder capaz de conduzir seu povo a novos patamares. Como Sarmiento, (presidente argentino no final do século 19), dizia: o estadista, definitivamente, é um educador.
Churchill advertiu aos ingleses que Hitler era um perigo, mas estes acreditaram na ilusão da paz. Depois lhe deram a razão. Mas aí ele só poderia oferecer "sangue, suor e lágrimas" e assim conduzi-los à vitória.
Estadistas como Sarmiento e Churchill são excepcionais. Ao contrário deles, a maioria dos políticos só aspira mover-se com astúcia num mundo de aparências, para despertar os aplausos da audiência. Maquiavel, que era um descarnado realista, não se fazia ilusões sobre a envergadura moral dos príncipes e políticos que tratavam com o povo. Por isso supunha que todos eles estariam dispostos a disfarçar a realidade.
Antes e depois de Maquiavel a arte da política se aproximou perigosamente da arte da simulação.
Nas pequenas localidades, como o foram a ágora ateniense, o fórum romano, e os reduzidos ambientes de republicas do Renascimento como Florença, cidade de Maquiavel, a arte da simulação tinha que exercer-se cara a cara, frente a uma realidade imediatamente perceptível. Quando um príncipe decidia enganar a seus interlocutores, como o fez Cesar Borgia, a quem Maquiavel apresentou como um exímio cultor da arte da simulação, sua tarefa não era fácil porque os iludidos eram no fundo, seus próprios pares. Ainda assim, quando o príncipe devia atuar como uma pessoa, (persona), frente a outras pessoas, (personas), a dissimulação já formava parte da arte da política. Não devemos esquecer nunca que a palavra persona significou em sua origem: a máscara que usavam os atores.
A situação atual é diferente. Entre o político que procura enganar e as massas a quem se dirige, existe um abismo de informações. Os cidadãos agora, já não estão na presença direta dos políticos. Entre uns e outros media uma imensa distancia, porque o povo já não é uma "persona" em carne viva. Há uma trama complexa de mensagens que passam pela mídia com a ajuda de pesquisas e indicadores. Entre os receptores da mensagem política, impera hoje uma aguda sensação de desconfiança.
A economia vai bem como diz o governo? Ou as mensagens da oposição estão mais perto da verdade? Ao meio de um choque de argumentos em conflito, os cidadãos não sabem em quem acreditar. Por isso, para que se recupere a confiança do povo, se criaram as pesquisas e indicadores. Portanto, quando um político envia as suas mensagens, necessita apoiar-se em pesquisas e indicadores econômicos ou sociais avalizados por instituições cuja imparcialidade, percebida, lhe sirva de guarda-chuva.

terça-feira, setembro 16, 2008

Uma obra de arte sem Moldura


O cara desce na estação do metrô de NY vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.
Durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes, ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de
1713,
estimado em mais de 3 milhões de dólares.
Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam
a bagatela de 1000 dólares.

A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto.

Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

COLOCAR DE PÉ A OPOSIÇÃO

Trechos de artigo do politólogo e historiador argentino Natalio Botana (foto) no La Nacion

1. A democracia se desenvolve de acordo com o ritmo de dois movimentos: os governos devem construir poder e a oposição deve suscitar alternativas. O vazio de confiança, que atrai os argentinos para o despenhadeiro, se deve à acumulação de erros históricos, entre eles a implacável instabilidade dos contratos e à debilidade de uma sociedade civil que não chega a representar-se e que, além disso, está duplamente agredida por cima e por baixo.

2. Muito poucos expressam e menos executam a imprescindível reforma do Estado que seja capaz de reparar certas estruturas obsoletas. Elas não fazem mais do que demonstrar a escassa atenção que merecem, entre outros, as crianças e os adolescentes mais desprotegidos.

3. Estas reflexões podem servir para colocar sinais no trajeto da oposição. O diálogo na política é tão indispensável quanto o compromisso. Não obstante, ambos poderiam concluir, numa ação inútil, por não mediar a vontade de identificar-se com as reivindicações da sociedade civil. Algumas dessas exigências são singulares, outras, ao contrário, são como um rumor nos gritos e gestos das vítimas.

4. Disso se trata, em suma, de recuperar a dignidade. É uma tarefa por si só difícil, pois a arte da construção política caminha de maneira mais lenta que a da contestação social. Esta última é tributária das mobilizações sociais, que surgem dos interesses afetados. A arte da construção política supõe, ao contrário, uma tenacidade mais firme para aproximar posições e superar a tentação de monopolizar a verdade e a virtude.

5. É uma arte que antecipa um estilo de governo mais atento ao valor do consenso sobre determinadas políticas públicas. A confrontação não resolveu estes problemas e eles aí estão para maiores dados, as igualdades que não crescem e a violência social que não decresce. Estas são as capas da descrença coletiva que se deve atravessar.

quarta-feira, novembro 10, 2010

"O DEBATE DE IDEIAS ESTÁ DESAPARECENDO DA POLÍTICA"!

Um trecho da longa entrevista autobiográfica de Felipe Gonzalez (foto) a El País (07).

1. O que se está fazendo é seguidismo da opinião pública; se está banalizando o debate político a tal ponto que não se pode desenvolver projetos políticos que em certo momento podem ir na contramão da opinião pública. Como dizia Azaña, não há nada mais variável do que a chamada opinião pública.

2. Há cerca de quatro ou cinco anos, encontrei-me por acaso no aeroporto de Washington com Henry Kissinger (foto), e ele me disse: "Olha, Felipe, a política está nas mãos de pessoas que fazem discursos pseudo-religiosos e simplistas e que são na verdade ofertas de venda de eletrodomésticos". Concordei. E ele acrescentou: "Desapareceu de tal maneira o debate de ideias, a contraposição de ideias; estamos em uma simplificação tão grande da política, que deixou de me interessar. Aborrece-me profundamente este mundo da política em que estamos vivendo."

* * *

O QUE É LIDERANÇA POLÍTICA?

Outro trecho da longa entrevista autobiográfica de Felipe Gonzalez a El País (07).

1. Existem algumas características fundamentais de liderança política: a) não pode ser líder quem não tem capacidade e/ou sensibilidade, para sentir o estado de espírito do outro. Se você não consegue perceber o estado de espírito do outro, o outro não se sente próximo, sente que você não o compreende e não te aceita como líder; b) não há liderança a menos que você mude o estado de espírito dos outros, de negativo para positivo ou de positivo para ainda mais positivo, o que acarreta acreditar realmente no projeto oferecido, acreditar sem troca o que lhe dá mais força. E a capacidade de transmitir este projeto como um projeto que envolva os outros, que comprometa os demais mudando o estado de espírito que já existia.

2. Mas tem que ser um projeto que permita que as pessoas pensem que, apesar dos esforços exigidos, esse esforço fará sentido, convencendo-o que o que está sendo solicitado é solicitado porque se acredita nele. E se acredita de forma não mercenária (troca). Mas é preciso acreditar no se você está fazendo. Por exemplo, aqui está se fazendo substancialmente o que tem que ser feito, apesar de 'eu' discordar em algumas coisas. Ao mesmo tempo, o que se faz não é porque o senhor “mercado” impõe, e não temos escolha.

3. Por isso eu creio que há uma crise de credibilidade. A sociedade está muito mais complexa, mas a arte de governar é algo mais do que a administração das coisas. É a capacidade de fazer de uma sociedade plural em suas ideias, diversa nos sentimentos de identidade e contraditória em seus interesses, um projeto comum que interesse a todos em maior ou menor grau. Essa é a arte de governar o espaço público que partilhamos.

sábado, julho 28, 2007

BACK-DROPS!

Elisabeth Bumiller, em artigo publicado no New York Times, tratou do assunto sob o sugestivo título: "Os produtores de imagem de Bush elevam a arte teatral a novas alturas". Não passa desapercebido, a quem lê as colunas deste site, o quanto o presidente Bush tem tirado proveito das "photo opps" que sua equipe produz. Algumas destas fotos de oportunidade são fáceis de lembrar: A aterrissagem de George Bush no deck do porta-aviões, ao estilo 'Top Gun', será recordada como um dos mais audaciosos momentos do teatro presidencial da história americana. Não passa, porém, do último exemplo de como a administração Bush está indo muito além das bases teatrais estabelecidas pela Casa Branca do tempo de Reagan, no uso dos poderes da TV e da tecnologia para promover a presidência.
Funcionários de administrações passadas, Democráticas ou Republicanas, encantam-se ao ver como a Casa Branca não parece perder uma única oportunidade para apresentar Bush em cenários dramáticos e perfeitamente iluminados. É tudo planejado: a Casa Branca abasteceu-se de pessoal especializado das redes de TV em iluminação, ângulos para câmeras, e a importância dos cartazes e efeitos de fundo de cena.
Segundo o principal responsável pelo trabalho de construção de imagem de Reagan, Michael Deaver, "eles entendem o visual tão bem quanto qualquer um jamais entendeu (...) Eles fizeram do visual uma forma de arte".
Dan Bartlett, o diretor de comunicações da Casa Branca, disse: "Nós damos uma atenção muito especial não apenas ao que o presidente diz, mas também ao que o povo americano vê. Os americanos têm uma vida muito ocupada, e, muitas vezes, não têm a oportunidade de ler uma matéria ou ouvir uma mensagem por inteiro. Mas, se eles puderem ter uma compreensão imediata do que o presidente está falando, assistindo a um spot de 60 segundos na TV, nós alcançamos a nossa meta de comunicadores. Por isso, nós tratamos este assunto tão seriamente".
A "grande novidade" que os especialistas de marketing político estão identificando, porém, é o uso criativo e inovativo dos efeitos de fundo de cena (backdrops). Eles foram recuperados da função banal que possuíam para integrar-se à "mise em scène" cuidadosamente produzida. Assim, banners, cartazes, agrupamentos de soldados, atrás do pódio presidencial (ao estilo do filme "Paton"), grupos de pessoas, jardins, interiores, monumentos, e até equipamentos de guerra, são trabalhados como reforço, explícito ou subliminar, da mensagem que o presidente quer passar, e da sua imagem como líder nacional.
Um cameraman de uma rede nacional de TV chegou a afirmar: "Eles abordam o local de cada evento como se fosse um estúdio de TV", e equipes de TV comentam que raramente tiveram imagens tão atraentes como agora, para mandar para as salas de edição. A melhor conclusão sobre esta inovação foi feita pelo antigo responsável pela imagem de Ronald Reagan: "Eles entendem que, dando profundidade à imagem, o candidato ou o presidente aparece muito melhor. Eles sabem que o que está em volta da cabeça é tão importante quanto a cabeça".

segunda-feira, julho 24, 2006

Desconstruindo o Brasil: como iludir com números

A liderança do PT na Câmara dos Deputados anunciou o lançamento, em 12 de julho de 2006, do livro “Governo Lula: a construção de um Brasil melhor - a verdade dos números”. Com ele, a bancada do PT na CD pretende fazer, com fins nitidamente eleitoreiros, um balanço das realizações do governo Lula, comparando-o com os dois mandatos do governo FHC.

Já se sabia que o PT, em geral, e Lula, em particular, eram obcecados por uma suposta herança “maldita” que lhes teria sido legada pelo antecessor de oito anos. O que não se sabia era que eles se dedicariam a arranjar números e a fabricar comparações para “provar” que o governo atual faz muito melhor do que tudo que se fazia antes, aliás, desde o descobrimento do Brasil.

O líder petista naquela casa legislativa pretende que são “dados à prova de balas” e que o PFL e o PSDB pretendem deles fugir “como o diabo foge da cruz”. Ele esqueceu-se apenas de mencionar que a maior parte dos dados negativos no período imediatamente anterior à eleição e posse de Lula pode ser justamente explicada pela deterioração sensível experimentada pela economia brasileira em face da perspectiva da vitória eleitoral do partido que prometia “mudar tudo isso que (estava) aí”, inaugurando uma era de ruptura econômica e de revisão fundamental dos compromissos externos do Brasil.

O livro talvez seja mais relevante pelo que ele NÃO mostra do que pelo que ele efetivamente mostra, ou seja, um conjunto de dados estatísticos e de séries históricas habilmente arranjados – em gráficos, histogramas e tortas coloridas – para dar essa impressão de progresso notável nos números e nas tendências nos últimos três anos e meio. O PSDB vai provavelmente arranjar outros números e um conjunto alternativo de fatos para “provar” que muito do que se apresenta hoje como sucesso econômico e conquistas sociais representa, na verdade, uma herança “bendita” das sementes plantadas anos atrás, com o que os dois principais partidos brasileiros terão dado sua contribuição original para a velha arte de enganar com os números e de iludir com argumentos construídos.

A arte da comparação é sem dúvida alguma um velho procedimento das ciências sociais e, mais ainda, das mágicas eleitorais, bastando, no entanto, que seus praticantes se dediquem, efetivamente, a comparar elementos comparáveis entre si – isto é, “animais” pertencentes à mesma “família” – e que eles consigam construir argumentos que não ofendam o leitor pela sua apresentação especiosa e, sobretudo, que eles não incidam naquilo que se poderia chamar de desonestidade intelectual.

Ora, ao pretender que a “análise criteriosa dos dados mostra que o Brasil mudou para melhor de 2003 em diante”, o líder do PT na Câmara quer nos fazer acreditar que o Brasil, até então obstruído pelo mar de sargaços do não crescimento e da desigualdade social absoluta, despertou em 1º de janeiro daquele ano para um destino glorioso de desenvolvimento econômico e social, com crescimento acelerado dos empregos e a distribuição generosa dos frutos de um crescimento que só o partido do presidente Lula foi capaz de prover. A desfaçatez só é comparável à ignorância deliberada que o PT continua a exibir em relação aos “recursos não contabilizados”, ao esquartejamento das agências regulatórias, ao loteamento do Estado e à alienação de soberania em diversos lances de sua diplomacia partidária. Aliás, vários dos dados compilados foram extraídos do livro do líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante, “Brasil Primeiro Tempo: análise comparativa do governo Lula”, no qual já compareciam muitos dos golpes de ilusionismo econômico que a liderança na Câmara pretende agora nos impingir.

Por acaso, uma única frase do líder petista na CD deve receber nosso total assentimento, a de que “o Brasil de hoje, o Brasil de julho de 2006, é bem melhor que o de 1º de janeiro de 2003, quando o governo Lula iniciou-se”. De fato, o Brasil de hoje não apresenta todo o cortejo de números negativos que foram sendo criados ao longo de 2002, com a ameaça de vitória, concretizada em outubro, do candidato do partido que sempre prometeu alterar fundamentalmente os dados da economia brasileira. O que ocorreu, naquele ano, foi a introdução do bode na sala; sua retirada gradual, a partir de janeiro de 2003, melhorou sensivelmente o ambiente na casa Brasil, tornando-o mais respirável e sobretudo menos sombrio, tal como então se antecipava, em função da eventual perspectiva de que os novos inquilinos pretendessem “chutar o pau da barraca”.

À margem dos muitos números, figuras e gráficos otimistas, uma única comparação, que seria absolutamente singela, não é jamais feita na pequena brochura montada pelos “economistas” do PT: a de que a política econômica conduzida pelo governo Lula é fundamentalmente diferente – em mecanismos, instrumentos, natureza e orientação – da política econômica neoliberal que eles diziam combater na era FHC. Se esses economistas conseguirem provar, a todos nós, leitores da brochura ou simples cidadãos, que a atual política econômica difere radicalmente em propósitos, nas modalidades e no ferramental utilizado daquela que era aplicada antes de sua gloriosa assunção ao poder, então eles merecem um prêmio Nobel de economia, ou melhor, talvez um prêmio de lata de prestidigitação econômica.

O fato é, como sabem todos, que em nenhuma das políticas macroeconômicas tidas como fundamentais – na área monetária, fiscal ou cambial – ocorreu qualquer ruptura com tudo o que “estava ali antes”. Se mudanças ocorreram, nas políticas setoriais, elas foram para pior, quando não para o absolutamente negativo em termos de desempenho ou de regulação de setores importantes para o crescimento do Brasil: na área agrícola, houve ameaça sobre ameaça de “desconstrução” do agronegócio, com os constantes ataques do ministro do subdesenvolvimento agrário à agricultura de exportação e as freqüentes ameaças de invasão de terras pelos neobolcheviques do MST; na área da pesquisa agrícola, os impasses criado pelos opositores fundamentalistas dos transgênicos foi dramática para o progresso dos experimentos no setor; na infra-estrutura, todos assistiram à tragédia das estradas esburacadas e aguardam apreensivos a possibilidade de um novo apagão energético; todas as agências reguladoras foram literalmente castradas em seu poder de monitoramento e de implementação de normas apolíticas, substituídas estas por decisões governamentais que deixam os investidores sem condições de se precaver contra a possível volatilidade e o caráter errático das novas regras.

Nada na brochura nos lembra a não-reforma política, a não-reforma trabalhista, a não-reforma previdenciária, a não-reforma educacional (a não ser para constranger as universidades privadas e introduzir critérios dúbios de “justiça social”, de caráter racial, nas públicas). Em nenhum momento se diz que a carga fiscal, já pesadamente aumentada na gestão anterior, foi ainda mais reforçada, sem que qualquer reforma tributária no sentido do alívio impositivo tenha sido ensaiada nestes últimos três anos e meio. Tampouco se menciona o crescimento expressivo das despesas públicas, muito acima da inflação e da própria taxa de crescimento, tão pífia quanto ela tinha sido na administração tucana.

A brochura tampouco menciona que a política externa “ativa e altiva”, como gosta de repetir o chanceler a serviço da diplomacia partidária absolutamente canhestra e amadora do PT, sofreu derrota após derrota em todas as suas pretensões terceiro-mundistas e integracionistas. Quando Lula assumiu, a prioridade estava com o reforço do Mercosul e a “união da América do Sul”, para melhor negociar a – na verdade opor-se à – Alca. Não é preciso sequer mencionar o estado atual do Mercosul e a efetiva desunião regional para evidenciar o fracasso dessa política de “liderança” brasileira na região, recusada por todos e obstaculizada por muitos. Todas as candidaturas brasileiras para organismos internacionais – OMC, BID e sobretudo a obsessão com uma cadeira permanente no CSNU – sofreram derrotas fragorosas, causadas sobretudo por aqueles que tinham sido aprioristicamente definidos como “parceiros estratégicos”, a começar pela Argentina e pela China. A alienação da soberania nacional e a rendição a interesses estrangeiros da diplomacia petista tornaram-se patentes quando foi um governante estrangeiro – no caso o presidente Chávez – que definiu onde se instalaria uma nova refinaria de petróleo (e não estudos técnicos conduzidos no próprio Brasil) e quando o governo dobrou-se vergonhosamente à imposição da nacionalização dos recursos energéticos da Bolívia, em frontal oposição a tratados assinados entre os dois países e a acordos concluídos entre aquele governo e a Petrobras.

A desonestidade intelectual transparece, por exemplo, na comparação de taxas anuais de inflação, quando se menciona que quando Lula assumiu, algumas projeções indicavam que a inflação poderia chegar em 2003 a 42,9% e que agora a inflação de 2006 será de 4,5% ao ano. Desonestidade ainda maior vem associada à lembrança de que em outubro de 2002, o risco-país (calculado com base na aceitação dos títulos do governo brasileiro no exterior) estava em 2.035 pontos. Em maio deste ano [2006], estava em 216 pontos. Não é preciso dizer que não se tratava, absolutamente do risco-Brasil, mas única e exclusivamente do risco-Lula e do risco-PT.

Um outro “esquecimento virtual” comparece na questão cambial: jamais comparece na brochura a noção de “populismo cambial”, antes assacada permanentemente contra o ex-presidente do BC Gustavo Franco, quando a taxa real do dólar, em sua época, estava abaixo, em termos reais, da que hoje é suportada pelos exportadores e setores industriais. Tampouco se lembra que o governo Lula cumpriu obedientemente os acordos com o FMI, aumentando inclusive de forma totalmente voluntária o nível do superávit primário (de 3,75% do PIB para 4,25%), honrando todos os compromissos e terminando por devolver antecipadamente, num gesto claramente demagógico, os empréstimos de baixo custo concedidos por aquele organismo financeiro apenas para lançar títulos no mercado comercial a taxas de juros mais altas.

A questão do emprego é outro sintoma da desonestidade intelectual da brochura do PT, uma vez que se sabe que mais da metade do mais de um milhão de “empregos criados” corresponde, de fato, a empregos existentes que foram simplesmente formalizados, sem que fossem efetivamente gerados novos postos de trabalho. A redução das desigualdades é apresentada como outra das “vitórias” deste governo, quando os estudos indicam claramente que se trata de uma tendência dos últimos doze anos, pelo menos, quando a redução da inflação permitida pelo Plano Real eliminou o “imposto inflacionário” sobre os pobres e investimentos em infra-estrautura e em educação do governo FHC contribuíram para a melhoria de diversos indicadores sociais. O coeficiente de Gini baixou sim, mas não exclusivamente em virtude do bolsa-família, esse “mensalão” governamental que está criando um exército de assistidos do tamanho de uma Argentina que mais se assemelha a um curral eleitoral do que a uma comunidade de cidadãos que deveria ser paulatinamente inserida no mercado de trabalho.

A produção agrícola, por sua vez, ameaça novamente entrar em crise neste ano e no próximo, em virtude do pouco caso revelado pelo partido aliado do MST em relação ao agronegócio, que grande parte dos petistas despreza e pretende ver substituído por uma agricultura familiar não mercantil. A cartilha também mente quanto ao número de assentados da reforma agrária de Lula, misturando número de candidatos a lotes com assentamentos efetivos.

Finalmente, nada se menciona quanto à bomba fiscal que está sendo armada para 2007 pelos aumentos irresponsáveis dos salários dos funcionários públicos feitos nesta conjuntura eleitoral pelo governo Lula. Esses aumentos, travestidos de “correções de planos de carreira” para não serem sumariamente vetados pela justiça eleitoral, ofendem claramente os preceitos legais em matéria de legislação eleitoral, uma vez que são aumentos claramente acima dos índices oficiais de inflação, têm por fim contemplar os interesses de várias categorias do funcionalismo nesta época pré-eleitoral e são feitos mediante medidas provisórias, quando nada indica que eles apresentem urgência e relevância substantiva, como recomendariam os preceitos constitucionais regulando a emissão desse tipo de medida.

Em suma, o PT continua fazendo da propaganda seu principal instrumento político, mediante uma maquiagem nos números dos últimos anos, esperando que a maior parte dos cidadãos se deixe iludir quanto a uma suposta “excelência de resultados” do governo petista. Em matéria de magia eleitoral, para não falar de desonestidade intelectual, não poderia ser mais ilustrativo de tudo o que se tem assistido nos últimos três anos e meio.

sexta-feira, março 28, 2008

A identidade da esquerda!

Resumo de artigo de Leandro Konder no Jornal do Brasil!

1.
Os impasses da esquerda e a malandragem da direita criam um espaço peculiar - :.....nem esquerda nem direita souberam ocupar e manter esse lugar , vide Jânio e Collor . Esse é um espaço que vem crescendo no vácuo da fragilidade institucional brasileira, e ocupado agora pelo Lula ...que montou uma base heterogênea para governar - que por vezes o impede de governar - e engloba democratas, liberais, conservadores, populistas e até socialistas.


2.
Para não se perder nesse ambiente a esquerda deve se recordar do princípio gramsciano: "pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. A discussão empobreceu, a resignação se expande, e o espírito questionador está anêmico.


3.
A esquerda tem consciência desse drama e o enfrenta procurando não morrer. Quer mudar sem encerrar a luta e sem morrer. Conclui esclarecendo - o que entende por esquerda - hoje - ...são espíritos críticos que propõe alternativas aos malefícios que a desigualdade social acarreta para a humanidade. Seriam especialistas na luta contra a injustiça e na arte da sobrevivência.

sexta-feira, março 14, 2008

O Primeiro na aldeia ou o segundo em Roma?

Trechos da coluna dominical do jornalista sênior Mariano Grondona - em La Nacion.

1.
Quando Julio César marchava com suas legiões para a conquista de Roma, passou por uma pequena aldeia. Os membros de sua comitiva começaram a zombar dela até que Julio César os surpreendeu com esta frase: "Preferiria ser o primeiro nesta aldeia do que ser o segundo em Roma".


2.
Para seguir o rastro de uma carreira política, deve-se perguntar, então, qual é a ambição de seu personagem. Resigna-se ele a compartilhar o poder com outros para juntar-se a um grande projeto, ou sua sede de poder é tamanha que estaria disposto a reduzir o espaço de sua supremacia desde que não a compartilhasse com ninguém? Enquanto não podemos responder esta pergunta, ficamos sem conhecer o argumento central de uma determinada vida política.


3.
Temos de saber primeiro o que na realidade os políticos com poder, pretendem fazer depois, se não tiverem êxito ou fracassarem. Mas, é possível decifrar as intenções de um homem de poder, quando a arte política consiste em ocultá-las? Para lográ-lo, desde já, não é preciso ler seus discursos, mas sim observar suas ações. "Pelos fatos vocês o conhecerão". O comportamento concreto de um homem de poder se encaixa, então, na hipótese máxima, a ambição de uma dominação sem concessões, mesmo que seja a custo do espaço. Ou a hipótese mínima, a ambição de compartilhar para somar?

Pergunto: A carapuça serviu no Lulla?

quarta-feira, março 28, 2007

A DESCENTRALIZAÇÃO NA AGENDA NACIONAL

No latim clássico não existia distinção entre letras maiúsculas e minúsculas. Todos os textos eram escritos com letras semelhantes àquelas que hoje conhecemos como maiúsculas. A criação da maior parte das letras minúsculas deu-se entre os séculos IV e VI.
Quando a escrita e a cultura se refugiam nos mosteiros os livros passaram a ser vistos como objetos artísticos que valem não só pelo seu conteúdo mas também pelo seu aspecto físico. Assim, as iluminuras medievais desenvolvem a arte das maiúsculas nas letras que iniciam os capítulos de um livro. É por isso que, ainda hoje, a letra maiúscula é chamada de Capitular.
Depois que o padrão da escrita deixa de ser a inscrição na pedra e passa a ser o desenho no papel, as letras maiúsculas, mais difíceis de usar em caligrafia, caem em desuso para os textos simples, passando a ser vistas como algo ao mesmo tempo arcaico e elegante. Vem daí a noção inconsciente de que as letras maiúsculas designam coisas mais importantes do que as minúsculas.
Começa-se então a usar maiúsculas para dar ênfase a determinadas palavras, como nomes próprios, ou qualquer outra à qual se queira dar realce pelo seu sentido moral ou espiritual. Não é por outra razão que cientistas grafam "Ciência"; artistas grafam "Artes" ou "Cultura"; políticos grafam “Partido”; socialistas grafam “Movimentos Sociais”; liberais grafam “Mercado”, e por aí vai, demonstrando, claramente, que por trás dessa flexibilidade do uso das maiúsculas e minúsculas há um forte componente ideológico, diferentes visões de mundo. A revista Veja da semana passada trouxe um editorial corajoso e polêmico. Sob o título “Uma questão de estado”, informou seus leitores que, a partir daquela edição, passaria “a grafar a palavra estado com letra minúscula”, contrariando os dicionaristas que aconselham o uso de maiúscula quando a palavra for usada na acepção de nação politicamente organizada.
Seus editores explicaram assim a decisão: “Se povo, sociedade, indivíduo, pessoa, liberdade, instituições, democracia, justiça são escritas com minúscula, não há razão para escrever estado com maiúscula. Escrever estado com inicial maiúscula, quando cidadão ou contribuinte vão assim mesmo, em minúsculas, é uma deformação típica mas não exclusivamente brasileira. Os franceses, estado-dependentes, adoradores de seu generoso cofre nacional, escrevem ´État´. Os povos de língua inglesa, generalizando, esperam do estado a distribuição equânime da justiça, o respeito a contratos e à propriedade e a defesa das fronteiras. Mas não consideram uma dádiva do estado o direito à boa vida material sem esforço. Grafam ´state´. Com maiúscula, estado simboliza uma visão de mundo distorcida, de dependência do poder central, de fé cega e irracional na força superior de um ente capaz de conduzir os destinos de cada uma das pessoas. Grafar estado é uma pequena contribuição de Veja para a demolição da noção disfuncional de que se pode esperar tudo de um centralismo provedor".

O poeta chileno Pablo Neruda costumava ensinar: "Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias". Pois não foi outra coisa que fizeram os editores da revista. Como se pode observar, o pano de fundo dessa decisão editorial é a opção entre centralização e descentralização, tema cada vez mais em pauta nas discussões que buscam encontrar caminhos e soluções para o desenvolvimento do País.
Afinal, sem a correta repartição das competências e a devida distribuição dos tributos, acentua-se cada vez mais a centralização e a concentração de poderes nas mãos da União, agravando-se o nefasto e ineficiente fenômeno do “federalismo centrípeto”. Enquanto o Governo Federal comemora seguidos recordes de arrecadação, estados e municípios vivem uma constante sangria de recursos, à beira de um colapso financeiro. É uma equação que não fecha nunca.
O espírito federativo não é uma dádiva a ser partilhada entre os entes federados, mas um dever de Estado (ou estado?), que gera direito subjetivo à unidade federada.
O grande historiador Alexis de Tocqueville dizia que “A história nunca muda. O que muda são os historiadores”. Na semana passada, ao desmentir o francês, a revista Veja deu uma valiosa contribuição para mudar a nossa história.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

PASSAPORTE CARIMBADO

DUAS DECLARAÇÕES
Ainda soam bem claro nos meus ouvidos duas estúpidas declarações, gritadas repetidamente aos quatro ventos por milhares de ignorantes brasileiros, exigindo o Calote da nossa Dívida Externa! e o Fora FMI!
FESTEJO
Lembro também que, no governo Sarney, quando o Brasil decretou o calote, os mesmos ignorantes festejaram a decisão. E o resultado, como é sabido, foi triste demais para o país. Os investidores caíram fora e os financiamentos sumiram. E os poucos empréstimos que conseguimos obter chegaram com custos muito elevados. Tudo conforme o risco que o Brasil representava.
JUÍZO
Independente de qualquer simpatia por este ou aquele governante, o fato é que a partir do governo de FHC é que o Brasil tomou juízo e acertou melhor o rumo. Os acordos com o FMI e o Clube de Paris foram assinados com comprometimento. Faltou, na ocasião, a adoção da flutuação cambial, que apontei desde o primeiro momento.
FLUTUAÇÃO CAMBIAL
Hoje já temos a comprovação de que os acertos aconteceram. A partir da flutuação cambial, quando o governo transferiu para o investidor o risco da flutuação do dólar, as remessas financeiras para o Brasil passaram a ser melhor avaliadas. Entre tantas providências, esta foi muito importante.
CREDIBILIDADE
Para felicidade geral da Nação, e das Nações que estão apostando no Brasil, na área econômica o presidente Lula preferiu se manter afastado. Merece aplausos por ter colocado Henrique Meireles no BC. Com forte blindagem Meireles fez exatamente aquilo que o país precisava: ganhar credibilidade econômica.
RESERVAS INTERNACIONAIS
O resultado aí está: no âmbito externo o nosso saldo é credor. O governo deve pouco lá fora, e os empréstimos internacionais feitos pela iniciativa privada constituem reservas. Para cada centavo internado, o governo emite moeda nacional e a moeda estrangeira fica depositada em forma de reserva.
INVESTIMENT GRADE
Pergunto: é melhor fazer uma correta administração e ganhar credibilidade, ou o máximo é ficar bradando pelo calote da dívida? Com a palavra os inteligentes, pois os ignorantes não entendem da arte de administrar. Da minha parte informo que estou estufando os pulmões, para gritar aos quatro ventos, da minha satisfação quando o Brasil receber o INVESTMENT GRADE.
RECESSÃO AMERICANA
O surpreendentemente fraco índice de atividade regional divulgado ontem, pelo Fed da Filadélfia, indica que os EUA poderão sofrer uma recessão tão profunda quanto a de 1990 e muito pior do que a 2001. A opinião é dos economistas Sheryl King e David A. Rosenberg, do Merrill Lynch. Eles afirmam que o debate não é mais se a economia está em recessão, mas sobre quão duro o pouso será.

Fonte: PONTOCRÍTICO.COM

quinta-feira, abril 30, 2009

Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem a sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso.
E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo esta cambalhota!
(Carlos Drummond de Andrade).


Amigos, o vício é uma coisa séria. O vício é coisa difícil de largar. Na última quinta-feira, despedi-me de vocês, resolvido a nunca mais escrever colunas sobre futebol. Pedi a conta na Furacao.com e passei e-mail aos amigos comunicando a minha decisão.

Recebi dezenas de respostas pedindo pra ficar ou, ao menos, não deixar de escrever, nem que fosse para o “Fala, Atleticano”, a coluna do leitor do site. Firme em minha decisão, li cada um dos pedidos, respondi e firmei posição de não voltar de jeito nenhum.

Pelas minhas contas, foram 250 colunas em cinco anos, contabilizadas as colunas como leitor no “Fala, Atleticano” e depois como Colunista do RubroNegro.Net e da Furacao.com. Escrever mais o quê? Nada mais a declarar, encerrei a noite de quinta-feira decidido a não escrever mais sobre futebol. E a noite se abriu em sonhos.

Sexta-feira de manhã, algo me incomodava. Tomei café, fumei e nada de o incômodo passar. Liguei o computador e iniciei um parágrafo “O Geninho precisa parar com essa mania de botar os garotos no final da partida, pois isso não resolve nada”. Atônito, olhei para o micro e apaguei o período: colunas de futebol? Jamais.

Na tela, arrisquei um poema “Só a tua ausência me deu a real dimensão do quanto sinto a tua falta!” – mas o que é que me faltava? Tinha estado com a Edith na noite anterior, tinha estado com os amigos havia poucos dias, tudo que eu poderia querer estava comigo, mas na tela o poema era um neon na minha cara “Só a tua ausência me deu a real dimensão do quanto sinto a tua falta!”.

Resignado, dobrei-me diante da verdadeira verdade: faltava-me a coluna, este vício maldito. Vício é coisa séria, difícil de largar. E junto com essa inafastável verdade vieram-me os versos de Drummond, os quais cito no início deste texto, mas me vieram convertidos em paródia que também pode se chamar “Explicação”:

Minha coluna é minha consolação.

Minha coluna é minha cachaça. Todo mundo tem a sua cachaça.
Para escrever, site pequeno, coluna do leitor, site grande, Orkut, e-mail, blog, tudo serve.
Para louvar o Atlético como para aliviar os nervos, queixar o desprezo, cantar minha vida e trabalhos é que faço minha coluna. E minha coluna me agrada.
Minha coluna me agrada sempre...
Ela às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota, mas não é para o público, é para mim mesmo esta cambalhota!
Definitivamente, era preciso voltar a escrever as colunas. Mas onde? Tinha pedido para sair do site. E agora, Rafael? Em plena Sexta-Feira da Paixão, eu estava sem esperanças de voltar a escrever. Triste, fui à área de serviço, acendi um cigarro e por uma fresta da janela assoprava a fumaça para longe, como se criasse uma outra forma de me comunicar com Deus.

Não demorou muito e minha mãe veio me perguntar o que é que estava havendo. Contei-lhe sobre a perda da coluna e ela disse que a Páscoa é tempo de renascimento. Irônico, perguntei-lhe “Até colunas renascem na Páscoa?” e ela apenas repetiu “Páscoa é tempo de renascimento!”. Lembro-me só de ter dito “Amém!”.

Não me perguntem como, não queiram saber quem por mim intercedeu, mas eis que no Domingo de Páscoa me (re) apareceu um velho Amigo, Dr. Waldemar,
a me oferecer espaço neste blog para veicular minha coluninha, meu vício, minha cachaça, minha consolação.

Agradecido e cheio de felicidade, aceitei o convite do bom Amigo e neste espaço publicarei minhas colunas, a começar por hoje. E como o blog é rico noutros tantos assuntos - política, arte e literatura - é bem capaz de eu me animar a fugir um pouco do Atlético e publicar uns poemas, ou tentativas de poemas, coisa que até então não tinha podido fazer.
Para escrever, site pequeno, coluna do leitor, site grande, Orkut, e-mail, blog, tudo serve.
Para louvar o Atlético como para aliviar os nervos, queixar o desprezo, cantar minha vida e trabalhos é que faço minha coluna. E minha coluna me agrada.
Minha coluna me agrada sempre...
Espero, humildemente, que ela também agrade vocês, queridos leitores, prezados amigos, companheiros sem os quais a vida perde muito de sua graça e de sua beleza!
Abração do Rafael Lemos, agora sob as ordens do preclaro Chefe, Waldemar Pluschkatt Neto, meu velho e bom Amigo, convertido agora em Anjo da Guarda!

E-mail para contato:
rflemos75@hotmail.com

sábado, janeiro 05, 2008

ARTIGO IMPERDIVEL SOBRE OS TECNOCRATAS NA POLÍTICA! A HORA DOS NÃO POLÍTICOS!

Por Jorge Fernández Diaz - La Nacion - Trechos.

1. Não diria que a política seja assimilável à literatura ou à pintura, porém posso assegurar-lhes que se trata de uma arte maior e que sua prática necessita uma vocação tão profunda e abnegada tal como um artista verdadeiro se auto-impõe. Em vinte e cinco anos de jornalismo conheci apenas um dirigente de primeiro nível que não era um animal político. Um homem sem tempo livre, quase um prisioneiro da matéria que domina. As vocações vulcânicas apagam o homem do mundo, deixam suas famílias perplexas e também suas necessidades mundanas, e como todo ato de amor torrencial, trata-se de um ato obsessivo.

2. Ninguém consegue chegar aos primeiros lugares sem possuir esse fogo sagrado. Comparar a política real com a política corporativa das empresas é, portanto, um amargo equívoco. A política, apesar de todos os seus gurus e politicólogos, resiste às regras do gerenciamento ortodoxo e da ciência pura. No mundo dos negócios, um mais um são dois. Na política, como todo mundo sabe, dois mais dois não são necessariamente quatro. Os que não são políticos são homens de ideologia pasteurizada, que igualmente se apossam das posições de "centro", e do livre mercado, e que começaram a se meter no lodo da história.

3. Alguns se sentem, no fundo de seus corações, injustamente derrotados por “políticos medíocres" e 'burocratas clientelistas". Eles, os príncipes da nova política, eficientes e limpos, cursaram a universidade e conhecem o mundo: são bastante viajados. Como é possível que possamos ser derrotados por esses políticos de cabotagem, esses imprestáveis de sempre, se perguntam eles. Alguns desses gerentes da nova política dormem com a mala fechada ao lado da cama. Estão sempre prontos para voltar ao setor privado ruminando uma queixa:” Sou demasiado bom e honesto para ficar na política".

4. Na verdade, esquecem que os verdadeiros militantes políticos não têm para onde voltar, porque pertencem de corpo e alma à luta política. Porque não poderiam fazer outra coisa, pelo simples fato de que nasceram para aquilo, porque resolveram agir de uma fora extrema. Um gerente é demasiadamente cerebral e possui um demasiado "sentido comum" para agir assim. Um militante é medido, não apenas pelo modo com que reage a uma vitória, mas sim como se recupera de suas derrotas. Esses senhores necessitam um exame profundo para entender o que está ocorrendo com eles. Na verdade são amadores pensando que são profissionais. Não dominam o assunto completamente, e no fundo, o depreciam um pouco.

5. Toda a nova política está cheia desses personagens bonzinhos e amorfos: Aves de arribação querendo comer as feras ainda cruas. Não é possível ensinar política a um incapaz, assim como não se pode ensinar política a que não tem ouvidos. Entender a política entendê-la de verdade, é um Dom: ou se tem ou não o tem. É um saber que não se adquire nos livros nem nos claustros. Esse saber é adquirido nas ruas e de maneira visceral. O que quero dizer é que parecem possuir grandes convicções, porém lhes falta paciência e flexibilidade para organizar partidos políticos consistentes, com alas de esquerda e de direita, com democracia interna e participação.

6. Abertamente individualistas, um dia recebem três milhões de votos e no dia seguinte não recebem voto nenhum. Têm uma estranha alergia, contagiada pelos pesquisadores de opinião e a “opinião pública" mais toscas dos comentaristas automáticos das rádios, que consiste em acreditar que toda aliança é a Aliança, ou seja, uma montagem invertebrada e incoerente que fracassa ao governar. E também que todo pacto político, é uma aliança para dividir favores.

7. Sem dominar o assunto, sem vocação nem visão pública, sem sentido comum, sem pragmatismo e sem humildade, sem capacidade para compor uma idéia, julgam estar num lugar mas estão em outro. Só se consegue mudar a história com esse apetite insaciável, com essa paixão que um frio gerente não pode gerenciar. Talvez nem sequer possa compreender. A nova política não pode amadurecer nas mãos daqueles que não são políticos.

segunda-feira, maio 05, 2008

URUGUAI COMO REFERÊNCIA!

O politólogo e historiador argentino - Natálio Botana - analisa a vitória de Lugo no Paraguai de forma positiva em seu artigo A Democracia Liberal! Trechos. La Nacion.

1. O vento da democracia eleitoral continua soprando forte na América do Sul. A vitória de Fernando Lugo, no Paraguai, no último domingo, ilustra de maneira eloqüente as virtudes do sufrágio para destituir um regime hegemônico do exercício do poder. A destituição envolve um sério desafio. Em nossos países, a democracia eleitoral é um ponto de partida para alcançar benefícios de uma democracia institucional capaz de reconstituir o Estado de direito e lançar as bases de uma democracia de cidadãos com melhores níveis de equidade.

2. É necessário aplicar-se ao difícil aprendizado da arte das coligações políticas. Em grande medida, esta foi a estratégia de Fernando Lugo. Em torno de sua liderança, se construiu um amplo arco, que abarca desde os partidos tradicionais de oposição de centro-direita até um conjunto de movimentos sociais que podem enquadrar-se na esquerda. O caráter heterogêneo desta coligação significa uma vantagem eleitoral e, ao mesmo tempo, pode chegar a ser um sinal de debilidade de não colocar em prática alguns requisitos quanto à sua capacidade de governo.

3. Dada a urgência do que se deve fazer, a inteligência e a vontade do Presidente eleito serão decisivas para manter a coesão em suas fileiras. Deste ponto se infere que o propósito maior, que deveria inspirar o novo governo paraguaio, é o de ir armando, mediante reformas sucessivas, o perfil da democracia institucional.

4. Por isso, fez bem o presidente eleito ao voltar seu olhar para o Uruguai. Os governos e a oposição dos pequenos países guardam um depósito de sabedoria que deveria servir de exemplo para superar a instabilidade e a arrogância de alguns países grandes. No caso do Uruguai, a experiência reformista, que, como altos e baixos, procura levar avante o governo de Tabaré Vázquez, permaneceu alheia aos cantos de sereia do chavismo.

5. Não há, então, um só itinerário digno de ser seguido, mas sim dois caminhos possíveis. São razões suficientes para que a Argentina e o Brasil afrontem, com inteligência regional, as demandas que virão desde Assunção em
matéria energética.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

"E se os políticos pudessem calar-se por pelo menos um mês? "

Trechos do artigo do historiador Paul Kennedy, da Universidade de Yale, no Clarin, a partir do Cala-te dito pelo Rei da Espanha a Chávez.

1. Não seria um alivio para os ouvidos da humanidade se os políticos reduzissem em geral a quantidade de declarações que fazem sobre temas da atualidade? A lista de exemplos políticos de verborragia e hiperatividade podem estender-se com facilidade. Falar demasiado e atuar com excessiva freqüência reduz a credibilidade do que se pretende alcançar. Os mestres dessa arte quase esquecida de ficar na sua, fechando a boca, são os chineses.

2. Dão sua opinião apenas quando precisam fazê-lo e, de preferência, em particular. As diferenças internas se discutem a portas fechadas. Salvo no caso de surgir um tema demasiado irritante, optam pela diplomacia discreta e não pela oratória pública, e quase sempre se saem bem.

3. Talvez os chineses sejam os melhores discípulos da grande figura alemã de Otto von Bismarck, do que os ocidentais. Sem dúvida, Bismarck fez uma série de declarações públicas, mas em geral preferia atingir seus objetivos por meio da diplomacia e da negociação. Sua proporção de êxitos, até ao final de seus vinte anos como primeiro Chanceler alemão, foi extraordinária. Essas foram, sem dúvida, épocas extraordinárias, muito especialmente em termos históricos. A Alemanha era o eixo do sistema da Grande Potência Européia, Bismarck era um grande jogador de pôquer e um diplomata genial.

4. De todas as maneiras, esse exemplo extremo bismarckeano do "silencio é ouro" e a reticência atual das autoridades chinesas com relação a temas internacionais complexos são pontos que valem a pena considerar. Por mais que nossos políticos não possam guardar um longo silêncio, nem desaparecer durante toda uma estação, não poderiam comprometer-se a "se calarem" por um mês? Bastaria até uma semana. Por favor.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

"REVOLUÇÕES"

Num artigo no jornal La Nacion - no dia 16/02 - Marcos Aguinis, comenta as "revoluções", bolivariana e em alguns paises árabes, e os riscos de exportação das mesmas. Trecho!

1. " O poeta Heinrich Heine, escreveu que temia aos idealistas revolucionários, apesar de lhes ter alguma simpatia, porque quando tem o poder depreciam a liberdade e a arte, não amarão as flores, nem respeitarão as diferenças. Em outro texto fala da fantasia que está na cabeça de um revolucionário, aparentemente angelical. Suas súplicas ao bom Deus começam exibindo inocência: uma habitação arejada, uma sólida mesa para comer e escrever, e uma janela ampla pela qual veria grandes e formosas árvores, ...........nas quais pendurará seus inimigos."

2. "Sempre agitam a ilusão prévia de libertação, que logo se corrompe com assassinatos, campos de concentração e tirania. Pareceria que continuavam lançando chispas à maldição etimológica, porque em vez de conduzir ao futuro, a tração é para trás, em direção aos males que pretendia corrigir. Muda a decoração e os atores. Mas não o roteiro."

quarta-feira, junho 06, 2007

PESQUISAS E DEMAGOGIA! Aqui... como... lá...!

Trechos da coluna dominical de Mariano Grondona em La Nacion: O Novo Nome da Demagogia!

1. O verbo adular provem do latim adulari, uma expressão próxima a acariciar e a adulterar. Este último verbo provem da raiz AL, ou seja, mais além de ou no latim - alter, outro. Seguindo esta pista etimológica poderia dizer-se que a adulação tem o efeito de alterar, de levar mais além de si mesmo, a quem o adulador adultera, primeiro sua própria imagem para manipular depois a vontade. Fascinado pelo adulador, o adulado - acredita -, e cai, a partir daí, baixo a influência de quem o manipula como um meio para seus próprios fins. As carícias do adulador corrompem a sua vítima, alteram a sua natureza.
2.
Quando Aristóteles tratou deste tema em A Política, distinguiu dois tipos de adulação, conforme o regime político. Nas monarquias os cortesãos inescrupulosos corrompiam o rei mediante as caricias da adulação. Nas democracias, cujo soberano é o povo, os políticos corrompiam o povo mediante as caricias da demagogia. Mas hoje os demagogos contam com um poderoso instrumento que os contemporâneos de Aristóteles não tinham: a capacidade de medir cientificamente os sentimentos e as preferências dos adulados. Hoje a terra fértil que nutre a demagogia é a proliferação de pesquisas.

3. Aristóteles elaborou dois tipos de discurso: o eXotérico - destinado ao publico em geral -, e o eSotérico, reservado a seus discípulos. Da mesma forma há que se distinguir dois tipos de pesquisas: a exotérica, que se exibe ao publico, e a esotérica, para uso reservado do cliente.
4. O objetivo das pesquisas exotéricas, é o marketing. Quando se pode apresentar com um mínimo de verossimilhança, uma pesquisa que favorece a um candidato este decide divulgá-la. Elas tratam de um exitismo, de um jogo de ganhador. O observador deve ter muito cuidado com elas.
5. As pesquisas esotéricas, são as que mais se aproximam da verdade. Mas só o cliente a conhece. Mas que efeito produzem sobre o político que a contrata?
6. O sociólogo Dick Morris, consultor a seu tempo de Clinton, distingue três tipos de políticos: o "idealista falido" que tem grandes ideais, mas não consegue comunicá-los ao publico; o "Idealista Astuto", que tendo grandes ideais consegue comunicá-los e que é o melhor dos políticos porque é o estadista capaz de guiar seu povo. E o pior político é o "Demagogo" que - ao contrário - não abriga nenhuma idéia própria, mas que para triunfar se limita a cultivar sem escrúpulos, o que o público deseja, usando as pesquisas esotéricas sem preocupação com a realidade ou o futuro. Quer governar em direção a seu próprio êxito apenas.
7.
Tanto o idealista astuto como o demagogo utilizam pesquisas esotéricas. Um para comunicar com eficácia seus ideais. O outro para manipular as massas segundo a arte perversa da adulação.

8. Idéias que hoje não atraem majoritariamente o público poderão atrair no futuro quando as fórmulas demagógicas mostrarem sua falácia. Mas no outro extremo da tipologia de Morris milita uma grande quantidade de políticos que se limitam a medir as pesquisas esotéricas para dizer à maioria, em cada momento, o que ela deseja escutar. Estes demagogos se dedicam exclusivamente ao curto prazo: prometem o que se deseja hoje. Quando o humor social muda eles mudam também.
9. Mas seu destino os espera, certamente, em longo prazo, que agora desdenham.

PESQUISAS!
Nenhum instituto de pesquisa na Argentina deu mais que 35% das intenções de voto para Macri, candidato a prefeito de Buenos Aires. Aliás, 35% só um e uma vez. Em geral Macri tinha um pouco menos de 30% das intenções de voto em todos os institutos. Abertas as urnas Macri obteve 45,6%. Com a palavra os institutos para explicar. Se é que dá para explicar.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Charles Manson, a Celebridade!

Manson, assassino de celebridades, ele mesmo uma celebridade. Manson sempre foi o campeão de cartas na cadeia. Manson tem uma legião de fãs!
Tenho pensado muito na correlação entre o culto das celebridades e a violência.
O confronto constante com uma realidade tão diferente e que acaba por servir de modelo não favorece uma cultura de inveja e despeito? Já pensava há muito na questão de como as novelas, com aquele padrão bizarro de riqueza e beleza, deveria ser algo de acintoso para um povo tão pobre.
O culto das celebridades, não obstante, é algo mundial.
Interessante a sociedade, acaba por se auto-destruir onde menos se espera. Ao cultuar seus padrões impossíveis acaba por gerar uma massa de desesperados e desesperançados cuja frustração é imensa e perigosa.
Lembram-se? Antigamente as celebridades eram protegidas até pelos criminosos. Eram intocáveis.
Atualmente o ressentimento é tão forte que nos assaltos à celebridades já percebemos um prenúncio de um ódio quase cruel. A beleza e a fama despertam a inveja que acaba por se transformar em crueldade.
Trata-se de um sinal: padrões de uma minoria alardeados para uma maioria muito frustrada. Desses milhões que lêem tabloides, quantos não sentem inveja? Quantos não são perigosos?
Marc Chapmam, Charlie Manson, invejosos e psicopatas famosos. A celebridade favorece este tipo de coisa.
Uma amiga historiadora da arte fala de um outro historiador que nossa sociedade atual escolhe muito mal suas celebridades. Se no Renascimento a celebridade era Michelangelo, em nosso tempo é Luciana Gimenez (tá certo, peguei pesado até para o padrão "celebridades"). Essas imagens de algo impossível são, além de tudo, em geral vazias e pouco inspiradoras.